A observação de baleias está a registar um forte crescimento na Islândia, país onde a tradição da caça a esses cetáceos parece ter os dias contados

 

Depois de, durante muito tempo, terem acabado nos pratos em forma de filés, as baleias vivem novos tempos na Islândia, convertendo-se em grandes atracções do ecoturismo. Embora o aparecimento dos cetáceos seja, muitas vezes, rápido e furtivo, esses poucos segundos são suficientes para tirar o fôlego às dezenas de turistas que enchem as embarcações. “É uma das coisas que queríamos fazer de qualquer forma na nossa primeira visita aqui. Temos poucas hipóteses de ver baleias vivas”, disse à AFP um turista sueco.

Embora a presença dos turistas perturbe os mamíferos marinhos, os ambientalistas reconhecem que, acima de tudo, é preferível que estejam vivos a que terminem esfolados.

Em 2016, mais de 355 mil pessoas visitaram Husavik, na baía de Faxaflói, perto da capital, Reykjavik, na esperança de vislumbrar as baleias. Esse número traduz um aumento de 30% face a 2015 e o quádruplo do registado há 10 anos.

Por outro lado, na baía de Faxaflói também ocorre a pesca da baleia Minke, cuja população estável nas águas islandesas é estimada em cerca de 32.000 exemplares, segundo dados do governo. Ao contrário da pesca da baleia-comum, suspensa após a falta de interesse comercial do Japão, a caça à baleia Minke persiste na Islândia, um dos dois únicos países do mundo, juntamente com a Noruega, que ignora a moratória sobre a pesca comercial destes cetáceos, imposta em 1986.

Alessandro Rosa, um turista italiano, garante que respeita “as tradições” da Islândia, onde a pesca de baleias é registada desde o século XIII. Mas, ressalva, “nunca comi carne de baleia e não tenho intenção de fazer isso”.

Os próprios islandeses consomem pouca carne de baleia, e se a pesca se mantém é sobretudo para satisfazer a procura dos turistas. Em 2016, o país recebeu 1,8 milhões de visitantes, e deve receber mais de dois milhões neste ano.

Há vários anos, a Islândia está longe de explorar as quotas a que tem direito, devido, em grande parte, ao mau tempo. A “IP-Utgerd Ltd”, companhia especializada na caça da baleia Minke, abateu 46 mamíferos em 2016 e 17 este ano, muito abaixo do limite estabelecido, de 224.

Em Reykjavik, o restaurante “Thrír Frakkar” inclui carne de baleia no cardápio desde que abriu portas, em 1989. Os asiáticos são os clientes mais assíduos. “Eles estão habituados à carne de baleia, é algo que está na sua cultura”, explicou o “chef”, Stefán Úlfarsson.

Entre a caça e a observação, as baleias contribuem com cerca de 100 milhões de euros (933 milhões de patacas) em rendimentos por ano na Islândia, pequena ilha com cerca de 300 mil habitantes e um PIB de 20 mil milhões de euros (186 mil milhões de patacas), segundo dados dos especialistas.

A caça continua a ser rentável e, segundo dados do sector, com cerca de 45 exemplares pescados anualmente desde 2003, o seu preço duplicou numa década, passando a 2.500 coroas por quilo (190 patacas), superando o frango e o porco. Porém, os consumidores são cada vez mais escassos. Segundo o Fundo Internacional para a Protecção dos Animais (IFAW), o consumo de carne de baleia caiu entre os turistas estrangeiros: em 2016, só 12% afirmaram ter comido, face a 40% em 2009.

Sigursteinn Másson, responsável da filial islandesa da IFAW, mostra-se mesmo convencido de que a caça às baleias tem os “dias contados”, devido à mudança de mentalidade da população.

 

JTM com agências internacionais