Paz, tolerância e união inspiram pinturas que passaram a decorar muros de Jacarta em resposta a recentes ataques suicidas na capital da Indonésia

 

Cinco artistas – quatro homens e uma mulher – decidiram recorrer à arte urbana para lutar contra o medo em espaços públicos com o projecto “Reclaim: Jakarta” (“Recupera Jacarta”). Idealizada pelo artista Isrol Triono – conhecido como Media Legal – e pela “Micro Galleries”, a proposta vingou com uma campanha de financiamento colectivo que permitiu angariar 1.100 dólares americanos em menos de 24 horas.

Para além de Isrol, os artistas indonésios Aryo Dewa Bharata, Robowobo, Dan Wacky e Nur Nus assinam os vários murais, grafites e pósteres que começaram a surgir a 8 de Junho no sul e no leste da capital do país com a maior população muçulmana do mundo.

“É uma resposta positiva à recente bomba no leste de Jacarta, a bomba de Kampung Melayu, para passar do medo para atitudes mais positivas”, explicou à Agência Efe Robowobo na loja onde vende latas de spray para os grafites.

Após o atentado de 24 de Maio, reivindicado pelo Estado Islâmico (EI) e atribuído pelas autoridades a um dos seus grupos filiados na Indonésia, o “Jamaah Ansharut Tauhid”, ocorreram mais dois ataques “jihadistas”, ambos com armas brancas.

“Continuam a acontecer coisas más porque pessoas boas recusam fazer algo sobre isso”, dizia a mensagem num dos desenhos de Aryo Dewa Bharata, entretanto retirado pela equipa de limpeza municipal.

Há alguns anos, Bharata foi viver para Bali, ilha de maioria hindu. “Em Jacarta, o extremismo é cada vez maior, e aqui [Bali] existe mais tolerância e respeito com os demais”, explicou o artista, que é muçulmano.

Bharata adverte que os seguidores radicais do Islão estão espalhados por todo o país, inclusive na sua família. “Um primo da parte do meu pai, que cresceu comigo, saía comigo, está agora na ala do ‘Islão puro’”, lamentou Bharata, defendendo, por outro lado, que a arte poderá mudar o comportamento das pessoas, ainda que lentamente.

Embora a Indonésia tenha sido apontada em várias ocasiões por líderes ocidentais como um exemplo de tolerância e diversidade religiosa, a maioria dos habitantes de Jacarta concorda que a influência dos religiosos radicais aumentou. De acordo com dados oficiais, 220 dos 201.550 reclusos que estavam em estabelecimentos prisionais da Indonésia até Outubro do ano passado foram condenados por terrorismo.

“Quando as pessoas perdem os empregos e não têm forma de se manter, recorrem a esta ideologia. Precisam de ter algo que possam defender”, considera Robowobo.

Conhecido pelo desenho do robô que está em quase todas as suas obras, o artista escolheu a frase “União na diversidade”, o lema nacional, para enquadrar o seu contributo para o “Reclaim: Jakarta” e, simultaneamente, lembrar que há mais do que uma religião e cultura no arquipélago.

Por trás deste quinteto indonésio está a iniciativa global “Micro Galleries”, que em Outubro vai reunir em Jacarta artistas nacionais e internacionais para “usar a arte como um meio de mudança social” e aproveitar os espaços públicos, segundo sublinhou a directora Kat Roma Greer.

“É importante que as comunidades sintam que fazem parte e que são colaboradoras do evento e não apenas uma tela em branco. É um pouco diferente do ‘Reclaim Jakarta’, que por natureza é uma resposta de guerrilha”, disse Kat.

 

JTM com agências internacionais