O Presidente chinês chegou ontem a Hong Kong para a sua primeira visita oficial na qualidade de Chefe de Estado, motivada pela comemoração do 20º aniversário da transferência de soberania. Xi Jinping apontou três propósitos específicos para a sua visita: reconhecer os “grandes feitos” dos últimos anos, demonstrar o “forte apoio” do Governo Central e mapear o futuro para garantir o “sucesso duradouro” da política “Um País, Dois Sistemas”

 

Inês Almeida*

 

À chegada a Hong Kong, Xi Jinping prometeu trabalhar para garantir que o princípio “Um País, Dois Sistemas” se mantenha “estável” e por “longo tempo” na RAEHK. No seu discurso, o Presidente chinês começou por referir que “o 20º aniversário do retorno de Hong Kong à Pátria” constitui “um evento significativo e uma ocasião alegre para o país” e para aquele território.

A visita oficial de três dias tem três objectivos principais, indicados pelo Chefe de Estado. “Em primeiro lugar, transmitimos os nossos desejos e os parabéns aos grandes feitos conseguidos pela Região Administrativa Especial de Hong Kong no 20º aniversário do seu estabelecimento. De coração cheio, desejo que Hong Kong venha a criar nova glória”.

Além disso, Xi Jinping frisou a intenção de demonstrar o apoio de Pequim a Hong Kong. “Ao longo de 20 anos, o Governo Central tem dado sempre um forte apoio a Hong Kong e continuará a ajudar ao desenvolvimento da RAEHK e aos seus esforços no sentido de melhorar as condições de vida da população”.

Ao mesmo tempo, o Presidente pretende “mapear o futuro”. “Com todos os sectores da sociedade, desejamos olhar para o extraordinário percurso de Hong Kong nos últimos 20 anos”. “Juntos, podemos unir a nossa experiência e olhar em direcção ao futuro para garantir o tranquilo e duradouro sucesso da política ‘Um País, Dois Sistemas’”.

“Estou ansioso para sentir a nova atmosfera e as mudanças em Hong Kong depois do desenvolvimento ao longo de todos estes anos”, indicou o Chefe de Estado, convicto de que “através dos eventos que terão lugar aqui [RAEHK], a nossa determinação e confiança em desenvolver e construir uma Hong Kong melhor será, com certeza, aumentada”.

O Presidente chinês disse sentir-se “feliz” naquela que é a sua primeira visita à Região Administrativa Especial desde que subiu ao poder (2013), já que a última vez que esteve na antiga colónia britânica foi há nove anos, pouco antes de Pequim acolher os Jogos Olímpicos de 2008.

O avião oficial que transportou Xi Jinping aterrou perto do meio-dia, tendo o Chefe de Estado e a Primeira-Dama, Peng Liyuan, sido recebidos no aeroporto pelos principais responsáveis do Executivo da RAEHK.

Hong Kong recebe o líder máximo da hierarquia política chinesa com imensas bandeiras do país espalhadas por toda a cidade e entre fortes medidas de segurança, sobretudo nos arredores do hotel onde está hospedada a delegação e nas proximidades do Centro de Convenções onde decorrerão amanhã as cerimónias oficiais da comemoração do aniversário.

Nessa zona da cidade, Wan Chai, estão desde o início da manhã de ontem milhares de agentes da autoridade destacados nos principais pontos de acesso, com vários grupos de cidadãos pró-China a dar as boas-vindas ao Presidente chinês e a festejar o retorno de Hong Kong à soberania chinesa após 150 anos de ocupação britânica.

A visita de três dias culminará na investidura de Carrie Lam, eleita em Março, que será a primeira mulher a desempenhar as funções de Chefe do Executivo de Hong Kong.

Hong Kong foi integrada na República Popular da China em 1997, ao abrigo da fórmula idealizada pelo antigo líder chinês Deng Xiaoping para a reunificação do país, a qual permite a continuação por mais 50 anos do “modo de vida” do território, nomeadamente as liberdades de expressão, imprensa e de associação, desconhecidas no resto do país.

 

Activistas detidos na véspera da chegada do Presidente

Ao longo do dia de ontem eram esperadas algumas acções de protesto contra a soberania chinesa, porém, tal não aconteceu, uma vez que os principais líderes dos movimentos de oposição ao regime foram detidos na véspera devido a perturbações da ordem pública e permanecem sob custódia da autoridades.

Três grupos pró-democracia afirmaram que 26 dos seus membros foram detidos na quarta-feira devido a distúrbios, na sequência de uma concentração em torno da escultura da flor de bauhinia, emblema da cidade e um presente de Pequim a Hong Kong, em 1997, para simbolizar a transferência de soberania do Reino Unido para a China.

Entre os detidos estão Joshua Wong, rosto do chamado “movimento dos guarda-chuva” que ocupou três das principais artérias da cidade durante quase três meses, no final de 2014, e Nathan Law, outro líder estudantil que faz parte do partido a que pertence Joshua Wong, o “Demosisto”, eleito em Setembro para o Conselho Legislativo.

Joshua Wong foi detido a par de cerca de 20 militantes, alguns dos quais se acorrentaram à estátua da flor de bauhinia, enquanto outros decidiram escalar até às suas pétalas. A polícia rodeou o monumento e dispersou os manifestantes um a um, deixando que partissem em liberdade, com excepção de Joshua Wong e Nathan Law, actual deputado do mesmo partido que Wong, ex-líder estudantil que estava entre os protagonistas do “Occupy Central”.

“Não têm nada que celebrar!” disse Nathan Law a pessoas que se encontravam nas redondezas. Por seu turno, Joshua Wong afirmou que “o carácter único de Hong Kong e o seu estatuto político estão sob ameaça”. “O que queremos é que toda a gente tenha direito a decidir, por referendo, o futuro da cidade”, defendeu.

As autoridades já tinham advertido os manifestantes para a possibilidade de serem detidos caso o protesto não cessasse imediatamente. “Longa vida ao movimento dos guarda-chuvas” gritaram, numa referência à revolta de 2014, assegurando que ficariam naquele lugar durante toda a noite.

Os militantes reclamaram também a libertação do dissidente chinês Liu Xiaobo, prémio Nobel da Paz 2010, actualmente sob liberdade condicional para receber tratamento devido a um cancro no fígado. O escritor e dissidente foi condenado em 2009 a 11 anos de prisão.

“Democracia agora. Libertem Liu Xiaobo”, gritavam os manifestantes. “Não queremos Xi Jinping. Queremos Liu Xiaobo”.

A polícia retirou rapidamente os turistas que se encontravam na zona e, durante a tarde, Joshua Wong e outros militantes cobriram o monumento com um pano negro que entretanto foi recolhido pelas autoridades.

A nova Chefe do Executivo já prometeu conciliar ambas as partes mesmo antes da sua tomada de posse. Ainda assim, parte da sociedade acredita que Carrie Lam obedecerá às ordens de Pequim por, tal como os seus antecessores, ter sido indicada por um comité eleitoral, cuja maioria dos membros é favorável ao Governo Central.

De qualquer modo, a ex-Secretária para a Segurança Regina Ip, rejeitada pelos pró-democratas, acredita que o sistema semi-autónomo do território “aguenta bem”. “Se a democracia que pedem implica uma ruptura com Pequim, é um ponto de saída inaceitável”, defendeu, citada pela agência AFP.

O líder do Partido Liberal, também pró-Pequim, Felix Chung, sustenta que o crescimento económico em Hong Kong é muito melhor do que teria sido sob soberania britânica. “O Governo Central dá muitas liberdades”, garante.

No entanto, entre os activistas, continua a prevalecer o cepticismo e pessimismo. “Os cidadãos de Hong Kong perderam a esperança”, lamentou Nathan Law à AFP, advertindo que “é um problema enorme”.

 

* com agências internacionais