As horas de trabalho são longas, a poluição incomoda, os transportes estão cheios, mas as oportunidades e o salário fazem com que Hong Kong continue a valer a pena para os estrangeiros, nem que seja apenas por alguns anos

 

“Os salários não baixaram, subiram ao longo dos anos, o emprego continua a ser atractivo em relação a Portugal. Até arriscava dizer que a diferença é maior porque lá os salários baixaram. As pessoas com as mesmas qualificações ganham menos”, disse à agência Lusa Luís Capelo, de 50 anos e há 15 em Hong Kong.

Foi o fabrico de produtos electrónicos que o trouxe à antiga colónia britânica. Chegou “no período complicado” do surto de pneumonia atípica, que matou quase 300 pessoas. Mas hoje dedica-se a uma actividade completamente diferente, ligada aos vinhos portugueses.

Além dos salários, a carga fiscal mantém-se como um dos maiores atractivos. Em Hong Kong, o máximo descontado ronda os 15%, bastante inferior ao de Portugal, destacou o português.

Ser estrangeiro nunca foi uma desvantagem: “Em Hong Kong a regra é que se a pessoa é qualificada, não interessa de onde vem”.

Apesar dos preços elevados – casa e estacionamento – nota um aumento do número de portugueses: “Quando cheguei era difícil juntar mais de cinco pessoas para fazer um almoço. Agora já fazemos jantares com mais de 100 pessoas”.

As boas condições fizeram o jovem Chris Zhang, de 25 anos, trocar os Estados Unidos, a sua casa durante quase sete anos, por Hong Kong, onde conseguiu um contrato no banco Morgan Stanley.

Além da maior proximidade com a família na província chinesa de Henan, agora à distância de duas horas e meia de voo, as perspectivas de trabalho agradaram. “Vim para Hong Kong para progredir na carreira de forma mais rápida”, salientou, justificando que a cultura naquela região chinesa, sobretudo na área das finanças, é a de dar mais responsabilidade aos profissionais juniores assim que eles entram no mercado de trabalho.

O salário também ajudou. “Em Hong Kong os impostos sobre o rendimento são de apenas 15%. Nos Estados Unidos são 45%. Poupo nos impostos, além do subsídio de renda, que faz aumentar o salário em 10%”, disse o jovem formado em Economia e Matemática.

A experiência de dois anos no Morgan Stanley abriu-lhe a porta para uma posição no mesmo banco nos Estados Unidos para onde vai regressar em breve. “Hong Kong é uma cidade com um ritmo bastante acelerado, e difícil de se viver, há uma grande disparidade de salários”, exemplificou, confessando-se habituado ao ambiente mais calmo de Connecticut ou Filadélfia, onde há “mais espaço, mais relva, e menos pessoas”.

A qualidade de vida foi um dos factores que levou Carina Ferreira, de 30 anos, a fazer o trajecto inverso para a Europa, neste caso Paris, depois de dois anos em Hong Kong, como directora de marketing de uma ‘start up’, e de outros três primeiros em Singapura.

“Em Hong Kong, o dia de trabalho dura mais. Estás ligado o dia inteiro, a noite inteira. É non-stop. E sim, a falta de espaço, os apartamentos pequenos, o congestionamento da cidade que torna difícil o simples andar na rua, o facto de a cidade ser extremamente poluída, os problemas respiratórios, as doenças de pele, tudo isso afecta as pessoas”, disse.

A ida para França surge por uma oportunidade do namorado, francês, que viveu em Hong Kong 11 anos, mas Carina Ferreira também acusa algum cansaço: “Foram mais de cinco anos na Ásia, por isso tendo Hong Kong uma velocidade ainda mais intensa do que Singapura, foi desgastante”.

Nascida no Canadá, onde viveu até aos nove anos, antes de ir para Portugal, esta emigrante de segunda geração reconheceu as vantagens da “cidade cosmopolita”, como “as actividades ao ar livre se o tempo estiver bom”, mas considerou que “o custo de vida prevalece sobre a qualidade de vida”.

“As rendas são ridículas em Hong Kong e, com o passar do tempo, ou bem que o teu ordenado continua a crescer, ou acaba por pesar”, afirmou.

 

JTM/Lusa