Larry Wei
Larry Wei

Embora o sentimento de pertença à China seja menor em Hong Kong do que em Macau, os jovens da região vizinha assumem opiniões divergentes sobre essa matéria. Vinte anos após a transferência de soberania, a identidade chinesa divide muito a nova geração

 

Viviana Chan

 

A identidade chinesa é uma das questões que mais divide os jovens de Hong Kong, com as divergências a agravarem-se nos últimos anos e sem dar sinais que permitam antever melhorias num futuro próximo. Esse cenário é confirmado pelos testemunhos de jovens residentes de Hong Kong ouvidos pelo Jornal TRIBUNA DE MACAU sobre o modo como perspectivam o futuro da RAEHK, que amanhã celebra o seu 20º aniversário.

Enya Fong começa por dizer que a transferência de administração de Hong Kong é um “evento associado ao patriotismo”. “Sinto-me muito orgulhosa do fundo do coração pelo regresso de Hong Kong” à China, afirmou a este jornal.

Nascida e criada no Interior da China, Enya Fong considera que a transferência de soberania de Hong Kong concretizou-se segundo “os procedimentos definidos pelo Governo Central”. Mas, mais tarde, quando começou a residir na RAEHK, descobriu que a mesma história é contada segundo diferentes pontos da vista.

“A minha compreensão sobre a transferência de Hong Kong mudou”, afirma, reconhecendo que os jovens têm um baixo sentimento de pertença à China, o que gera uma grande disparidade de sensibilidades entre as gerações novas e antigas. “Reconheço ser de cultura chinesa”, declara.

Ao longo da sua vivência na RAEHK, percebeu que a nova geração não tem uma visão positiva sobre a China, num contexto marcado pelo surgimento de conflitos entre o Interior da China e Hong Kong. “Existem muitos problemas, como os de natureza política, mas creio que a política não é o único problema”, aponta.

A jovem de 27 anos admite, por outro lado, que a celebração do 20º aniversário da RAEHK “não tem muito significado histórico” para si. “Preocupo-me mais com o futuro de Hong Kong, como por exemplo, os novos dirigentes do Governo e as medidas que poderão ser implementadas”, frisa.

Enya mencionou ainda que “na China Continental não faz muito sentido” debater a relação com Hong Kong, porque essa questão é enquadrada no princípio de “Um País”, mas confessa que “gostava que fosse discutido de forma diferente”.

Quanto ao futuro, acredita que as políticas aplicadas pelo Governo Central à região poderão ser apertadas. “Poderá haver mais coisas que os residentes de Hong Kong não aceitam”, antecipa a jovem, convicta de que o desenvolvimento futuro da região está dependente da atitude de Pequim.

 

Problemas de orgulho

Já Larry Wei, residente permanente de Hong Kong, considera que a transferência da soberania é “bem-vinda pela população em geral, porque as pessoas também se identificam com a nacionalidade chinesa, sobretudo as da classe média ou superior”.

“Estas classes têm as suas raízes na China, trabalham em Hong Kong há muitos anos, mas sabem seguir bem a evolução da sociedade, portanto, têm uma atitude activa sobre a transferência de soberania e aceitam as mudanças”, explica.

Para este funcionário da área de educação, as mudanças extremas na política e na economia da China Continental tiveram um impacto negativo na sociedade de Hong Kong, fomentando divergências políticas. “O conflito é em parte interno, porque, por um lado, registou-se a chegada de um grande número de turistas e os recursos sociais são desequilibrados, inclinando-se para o sector do turismo, o que causa uma elevada pressão nos serviços públicos, como os da saúde, onde se verifica falta de camas”, refere o jovem de 31 anos, notando que, nesse sentido, os conflitos de valores entre Hong Kong e o Interior da China acentuaram-se.

Na perspectiva de Larry Wei, a influência crescente do Interior da China na RAEHK levou muitos residentes a sentirem-se menos orgulhosos e até magoados, por se sentirem “inferiores” ao Continente. Na sua opinião, esta percepção tem contribuído para o desenvolvimento da ideia de independência de Hong Kong na sociedade. Porém, acredita que essa ambição só é partilhada por uma minoria da população.

Recordando que o movimento “Occupy Central” em 2014 traduziu-se numa “explosão” da população, considera que esses protestos reflectem a insatisfação geral face ao desenvolvimento político local e a desilusão, em contraponto com a prosperidade do Continente.

“Mesmo depois do Occupy Central muitos residentes de Hong Kong mantêm a mesma atitude arrogante, face à democracia e liberdade de expressão ao estilo de Hong Kong. Por um lado, condenam a censura política no Interior da China, mas por outro, aceitam de braços abertos as oportunidades oferecidas pela cooperação com a China”, afirma.

De resto, Larry Wei olha para o Conselho Legislativo de Hong Kong como uma “brincadeira”. “Os novos partidos têm membros muito jovens, os comportamentos são muito infantis e isso não ajuda a resolver os problemas políticos”, disse.

Defensor do Mandarim, por entender que o domínio da língua oficial da China tornou-se numa necessidade, o jovem espera que Hong Kong possa ouvir o Governo Central, aproveitar mais as oportunidades de desenvolvimento na estratégia nacional. Nesse âmbito, recorda que “Hong Kong é uma plataforma” no quadro da iniciativa “Uma Rota, Uma Faixa”.

 

A estranheza de ser “chinesa”

Carol Chan

Por seu lado, Carol Chan, natural da antiga colónia britânica, tem uma postura totalmente diferente: rejeita reconhecer a nacionalidade chinesa, por ser algo “estranho”, e define-se como parte das “gentes de Hong Kong”.

“Para mim, se disser que sou chinesa, parece que sou da classe da burguesia e dos novos ricos”, afirma, notando que a transferência de soberania tenha feito com que os “chineses” tomassem conta da sua terra. Apesar de tudo, reconhece que “as gentes de Hong Kong passaram a ter mais poder de decisão”.

Quanto às mudanças na sociedade, entende ser “difícil falar bem”, porque o Governo da RAEHK não é “muito competente, gerando insatisfação na população”. A seu ver, o preço das casas é um problema e, apesar da abertura de Hong Kong ao Interior da China ter aumentado os empregos disponíveis, também se agravou significativamente o custo de vida da população.

Em relação ao desenvolvimento democrático, Carol Chan sente-se “totalmente desiludida” e olha para o futuro de forma negativa. No entanto, continua a ter confiança no sistema judicial, referindo que pelo menos “o regime não se altera de um dia para outro”.

De uma forma geral, não tem grandes expectativas sobre os próximos tempos. Para si, “basta que a sociedade não seja muito injusta”.