A perda de competitividade de Hong Kong para cidades como a vizinha Shenzhen não impede que analistas de Macau assumam uma visão optimista sobre o desenvolvimento económico da região vizinha nos últimos 20 anos. Como pontos positivos destacam, sobretudo, a liberdade económica

 

Inês Almeida

 

Apesar de, em termos gerais, fazerem um balanço positivo do desenvolvimento da economia da RAEHK, analistas de Macau acreditam que o território vizinho tinha potencial para mais. “Hong Kong, em vez de andar a toda a velocidade, está a funcionar a meio gás. Vemos muitas obras embargadas ou boicotadas pelas discussões no seio do Conselho Legislativo e, com isso, as coisas não estão a funcionar tão bem como noutras regiões como Singapura”, indicou Jorge Fão, em declarações ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.

De qualquer modo, o antigo deputado reconhece que Hong Kong “continua a ser uma economia aberta a todo o mundo, sem um controlo muito apertado”. “As pessoas investem hoje na Bolsa de Valores de Hong Kong e se amanhã não quiserem podem transferir os investimentos para Nova Iorque”.

Este sistema financeiro e o imobiliário são os grandes “sustentáculos” da economia. “O mercado especulativo continua a evoluir apesar das medidas do Governo. Os resultados imediatos verificaram-se mas, passado pouco tempo, as pessoas conseguem descobrir a fórmula para ultrapassar os obstáculos implementados e, por conseguinte, o mercado está quase no auge”, frisou Jorge Fão.

Arnaldo Gonçalves tem um entendimento parecido. “Hong Kong desenvolveu-se e tornou-se numa das maiores metrópoles asiáticas. Não há limitação da liberdade económica e comercial como se temia, de certa forma, quando a China reassumiu a soberania”.

“A praça financeira é livre, independente, sem interferências da China Continental, ao contrário de Xangai onde há claramente o intervencionismo de Pequim, manipulando os preços das bolsas de valores”, aponta o presidente do Fórum Luso-Asiático.

Ao mesmo tempo, destaca que “as empresas estrangeiras funcionam em abertura, em concorrência”, tornando a RAEHK num “caso de sucesso”. “O único senão é que a cidade também se desenvolveu de uma forma brutal do ponto de vista do imobiliário, da construção e dada a pequena dimensão do espaço, isso torna-se pouco agradável”.

Já José Luís de Sales Marques opta por destacar o facto de o Governo Central ter atribuído a Hong Kong um “papel importante na internacionalização do renminbi”, o que pode ter duas leituras: “por um lado utiliza a mais-valia de Hong Kong ser um centro financeiro reconhecido e o seu acesso a Londres, que é outro centro financeiro importante para a internacionalização do renminbi, por outro lado, é uma oportunidade para Hong Kong ter uma maior relevância internacional”.

No cômputo geral, o economista acredita que a realidade deve ser analisada como um todo e, nesse sentido, “apesar de todos os problemas, Hong Kong continua a gozar de um conjunto de liberdades, garantias e direitos que fazem inveja à maior parte do mundo”.

Carlos Marreiros também vê a economia da região vizinha com bons olhos, embora perdendo alguma “agressividade” para Xangai e até Shenzhen.

 

Influência da política

Para Miguel de Senna Fernandes não é possível distanciar o panorama económico da vida política. “As incertezas começaram a instalar-se logo nos primeiros dias da RAEHK e isso teve um impacto negativo: sentiu-se a Bolsa a cair”, indicou ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.

Embora nos anos seguintes o desenvolvimento tenha sido mais promissor, Hong Kong “não cresceu tanto como se estava à espera”. “Augurava-se um futuro muito mais brilhante que não veio a acontecer. Terá sido por uma espécie de castigo por parte do regime central? Não vou tecer considerações”.

Para a RAEHK, os últimos 20 anos foram “conturbados” e “nada foi fácil, sublinha o advogado, acrescentando que “há actores que foram autênticos motores da economia de Hong Kong que já desapareceram”. Actualmente, o capital “vem da China”.

“Há uma maior dependência de Hong Kong e cabe a Carrie Lam [próxima Chefe do Executivo] uma palavra importante sobre isto. Espero que ela inaugure um novo ciclo para Hong Kong”, concluiu Miguel de Senna Fernandes.