Apesar de Hong Kong ter uma economia próspera, há grandes desigualdades ao nível dos rendimentos e uma parte da população enfrenta dificuldades, nomeadamente ao nível da habitação. Analistas de Macau entendem que o problema das questões sociais podia ter evoluído de outra forma ao longo dos anos, o que seria benéfico até para evitar o surgimento de movimentos como o dos “guarda-chuvas amarelos”

 

Inês Almeida

 

As últimas informações do índice de desigualdade de Hong Kong “são muito preocupantes”, entende Francisco José Leandro. Apesar de o desenvolvimento económico da RAEHK ter vindo a melhorar, “a desigualdade tem vindo a acentuar-se”.

“É importante resolver [a desigualdade] porque aquilo que está a acontecer com os chamados movimentos pró-democráticos, como os guarda-chuvas amarelos não representa a maioria da população mas antes é uma forma fácil de instrumentalizar uma corrente de opinião a partir do descontentamento económico e social”, frisou o académico em declarações ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.

Outro aspecto que aponta como merecedor da atenção do Governo está relacionado “com a própria corrupção”. “Dei estes dois exemplos da desigualdade e da corrupção porque minam a sociedade e tornam a governação difícil”.

Assim, defende o professor da Universidade de São José, esta situação “vai exigir uma série de medidas, políticas, económicas e sociais”. “Sei que o Governo de Hong Kong tem feito um enorme esforço nesta matérias mas parece que não está a ter os resultados que se esperava. Trouxe alguns, é certo, mas este acentuar da desigualdade é claramente um aspecto que pode pôr em causa a continuidade da evolução”.

A disparidade entre os rendimentos dos vários sectores da sociedade é uma questão que também preocupa José Luís Sales Marques. “Hong Kong é, em certo modo, controlada por uma oligarquia ligada aos interesses do imobiliário, da construção civil e dos negócios dos terrenos. Isso não é positivo”, indicou o economista referindo que esse factor levou a dificuldades sociais.

Por seu turno, Jorge Fão destaca a questão da habitação. “A população vive mal, em casas muito pequenas. Uma casa de 40 metros quadrados pode custar seis ou sete milhões de dólares, é muito caro”.

Carlos Marreiros partilha da mesma opinião. “Falta habitação social e económica. Há pessoas idosas que vivem dentro de beliches com gradeamento, que se confinam a um espaço que é uma cama”.

Ainda que esses sejam “casos extremos”, ressalva o arquitecto, “há jovens a viver em apartamentos muito pequenos”. “Hong Kong tem assimetrias no que diz respeito à habitação que é sempre a velha história das metrópoles do sudeste asiático: rendas caríssimas, num quarto ou numa sala de 10 metros quadrados mete-se quatro beliches e vivem oito pessoas. Isso é gravíssimo”.

“No tempo da administração britânica isto já acontecia, mas Hong Kong é governada há 20 anos por locais e esta questão já devia estar resolvida. Hong Kong tem meios e não consegue resolver a situação, porquê? Por uma certa incapacidade de liderança dos seus dirigentes”, defende o arquitecto.

Para Eric Sautedé trata-se de um assunto complexo que pode ser exemplificado com números: “em 2000, 10% dos lares de Hong Kong possuíam 65,6% da riqueza do território, em 2014, esse número cresceu para 77,5%”.

Ao mesmo tempo, o coeficiente de Gini, utilizado para medir a desigualdade, fixou-se em 0,539 em 2016, o valor mais elevado de sempre para a RAEHK e um dos maiores a nível mundial. “Os preços do imobiliário têm sido artificialmente inflacionados por mais 30 anos, portanto, não é surpreendente que mais de metade dos magnatas de Hong Kong tenham enriquecido graças ao imobiliário”, refere Sautedé.

Além disso, salienta que, apesar do crescente número de cidadãos com formação superior, estudo recentes mostram que “as pessoas já não compram o mito da mobilidade vertical, quer ao nível dos salários, da educação ou do trabalho”.