Após ter estado 156 anos sob controlo da Grã-Bretanha, Hong Kong abriu um novo capítulo da sua história a 1 de Julho de 1997, quando a bandeira britânica foi arreada e substituída por duas vermelhas: a da China e a que ostenta a flor “bauhinia”, escolhida como símbolo da nova Região Administrativa Especial. Os dias que antecederam a transferência de soberania foram “abençoados” com chuva constante, muitas manifestações de apoio e contra e bandeiras por toda a cidade, um pouco como vemos hoje na região. Houve ainda apelos de última hora e até lágrimas num adeus que marcou a história da China moderna. O Jornal TRIBUNA DE MACAU passa esses dias em revista, notando paralelismos com o presente e o modo como Macau olhava para o vizinho que dava o primeiro passo na era do princípio “Um País, Dois Sistemas”

 

Liane Ferreira

 

Dos 50 anos determinados para a “passagem” total de Hong Kong para a soberania chinesa, transcorreram 20, menos metade, num território cujo presente reflecte divisões já evidenciadas no passado, desde logo pela ocorrência de protestos tanto a 1 de Julho de 1997 como nas vésperas do 20º aniversário do estabelecimento da Região Administrativa Especial Chinesa. O Jornal TRIBUNA DE MACAU mergulhou nos arquivos do Jornal de Macau, do qual somos fiéis depositários, e neles “encontrou” a confiança de que o futuro ia ser sorridente e as experiências iniciais da RAEHK serviriam de exemplo e referência para a RAEM que nasceria dois anos depois.

Além das comemorações em Pequim, com o fim do sentimento de “humilhação”, sobressaíam então também os receios da Primeira-Ministra britânica, Margaret Thatcher, e a ideia presente no presidente do Partido Democrático de que a “semente” da democracia estava lançada.

Enquanto que em Hong Kong se faziam os últimos preparativos para a transição oficial, o “Jornal de Macau” escrevia a 27 de Junho de 1997 que Macau aguardava com “serenidade” e mostrava-se globalmente confiante de que o processo de transferência iria decorrer bem, podendo mesmo trazer benefícios ao território.

O Governador Rocha Vieira ressalvou, no entanto, que os modelos encontrados para Hong Kong não eram “necessariamente válidos para Macau”. Notando a “grande relevância regional e internacional” da passagem de soberania da região vizinha, Rocha Vieira olhava com expectativa para o futuro, frisando que o seu “êxito constituirá obviamente uma referência muito positiva para o processo de Macau e um factor importante na consolidação de um ambiente de confiança acrescido entre a população”.

Anabela Ritchie, então Presidente da Assembleia Legislativa, destacava o facto dos dois anos e meio que separaram a criação das duas RAE permitir a Macau “um quadro privilegiado de observação”. Além disso, considerou que só o sucesso na região vizinha permitirá “lançar as bases para a existência de um clima de confiança”.

Também para Neto Valente a questão da confiança era crucial, notando que ambos os territórios “vivem dos negócios que fazem, pelo que exigem estabilidade”. Classificando os acordos alcançados com Pequim como “um exemplo para o mundo”, por irem contra a corrente do “fanatismo e xenofobia”, o advogado advertia, porém que em Macau e em Hong Kong também “há patriotas e nacionalistas” que não passam de “oportunistas que estão sempre prontos para servir qualquer poder”.

Tanto Edmund Ho como Stanley Ho afirmavam-se “confiantes no futuro”. Tendo em conta o tempo útil entre as transferências de ambos os territórios, indicavam que tal daria “exemplos preciosos”. Os dois concordavam que os territórios eram muito diferentes, mas que iriam continuar a prosperar sob a administração chinesa.

 

De Macau: “boa sorte Hong Kong”

A 30 de Junho, o jornal salientava que na natureza tudo se transforma e “e de transformações Hong Kong sabe alguma coisa”, pois passou de minúscula aldeia piscatória a um dos mais vibrantes centros urbanos do planeta, mas no final o desejo de “toda a gente” era que acabasse “por ficar na mesma”.

Jaime Gama, na altura Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, afirmou ter recebido da parte do primeiro Chefe do Executivo, Tung Chee-hwa, “palavras muito encorajadoras” para o relacionamento entre as duas regiões. Antes da cerimónia, o Ministro português encontrou-se com o homólogo chinês, Qian Qichen, para rever o dossier de transição de Macau. Recusando paralelismos entre as regiões, Jaime Gama referiu que o governo de Macau não podia estar melhor entregue a Rocha Vieira e elogiou o último Governador de Hong Kong, Chris Patten, frisando que era “muito activo” e uma das personalidades mais mediáticas do final do século XX.

As “aflições” daquele dia prendiam-se com a dissolução do Conselho Legislativo e a correspondente manifestação, em resultado do incumprimento do acordado em 1984. Chris Patten governador inglês, decidiu avançar com reformas democráticas sem o acordo de Pequim e a China ripostou com a dissolução do Conselho logo após a transferência de soberania.

Apesar desses “solavancos”, era destacado o facto das duas potências terem resolvido um grave conflito territorial através de uma “solução engenhosa que salvaguardou os interesses de todos”.

Apesar de “certamente” subsistirem dúvidas quanto ao futuro, frisou-se então que poucas regiões no mundo se podem “gabar de iniciar uma nova era com tantos trunfos a seu favor”. De Macau “desejava-se do fundo do coração boa sorte a Hong Kong”.

A 30 de Junho, Hong Kong estava a meio de um período de cinco dias de feriados, dedicados ao fim de uma era e início de outra. A cidade estava “engalanada” com as bandeiras chinesas e da futura RAEHK. O ambiente de festa estendia-se aos hotéis que ofereciam banquetes, alguns a custar 3.000 dólares americanos.

Mas nem só de festa se viveu a véspera da transição. Margaret Thatcher, a quem coube a responsabilidade de assinar a Declaração Conjunta sino-britânica em 1984, admitiu “estar um pouco receosa” e avisou Pequim: “os olhos do mundo estão e vão continuar a estar em Hong Kong”.

Além disso, numa entrevista televisiva pediu à população para que “fale se sentir que as suas liberdades estão a ser restringidas”. “Partilho algumas das apreensões existentes (…) uma vez que alguns dos arranjos estabelecidos estão a sofrer alterações, disse em relação à dissolução do Conselho Legislativo provisório, falando de “diluição de liberdades”.

O 28º e último governador, cargo que assumira a 9 de Julho de 1992, preferiu fazer a sua última intervenção através do programa de rádio “Cartas para Hong Kong”, emitido nos dois últimos anos de administração britânica. Chris Patten afirmou que a “Grã-Bretanha nunca antes deixou um território que “ajudou a governar” tão “fabulosamente rico”, e que seria “bizarro” se Hong Kong deixasse de ser um mercado livre que o fez “prosperar e gerou aplausos de instituições e investidores”.

Por outro lado, criticou “um bando de propagandistas auto-nomeados que se encarregam de dizer ao mundo que a população não se preocupa com democracia e liberdades civis, mas apenas como fazer dinheiro”.

“Agora é a população de Hong Kong que tem de governar Hong Kong”, disse Patten, que acabou por se tornar persona non grata para a China, ao introduzir em 1992 um pacote de reformas democratizantes do sistema político, que deu azo a um aceso conflito sino-britânico.

À meia-noite, a transferência de soberania foi oficializada, fechando um ciclo de 156 anos de ocupação britânica e 99 após o arrendamento dos novos territórios. A cerimónia, que demorou cerca de 30 minutos, começou à 01:30, com mais de 10 mil pessoas, incluindo representantes de 45 países.

Num canto da capa, o Jornal de Macau, escrevia “E pronto. Cá estamos nós outra vez como durante alguns séculos, os únicos representantes do Ocidente, a gerirem um minúsculo pedaço de terra no interior da grande China. Com a data de saída anunciada, mas ainda com muita coisa importante para fazer e muitas questões para acertar”. “Não sendo directamente connosco a forma como gerirem Hong Kong, é óbvio que as soluções que forem sendo encontradas, a maneira como enfrentarem as dificuldades – inevitáveis- nos interessam particularmente”, lê-se no jornal.

Do lado de Londres, couberam ao Príncipe Carlos e ao Primeiro-Ministro Tony Blair as responsabilidades protocolares da cerimónia. Chris Patten assistiu ao arrear da bandeira com um certo estoicismo, reprimindo as lágrimas. Essa firmeza acabou por ser impossível de manter enquanto entrava no “Britannia” ao lado das filhas, que pareciam muito afectadas pelo momento.

Patten podia levar o consolo de ter o “êxito político de ter conseguido ser, anos a fio, o homem mais detestado em Pequim”. E se um homem também se mede pelos inimigos que faz, não é pequena a honra…”, escreveu o jornal.

 

Para os “anais da história”

Também não faltou a chuva, que caiu insistentemente no último dia de Hong Kong como colónia e no primeiro como Região Administrativa Especial, isto apesar do futuro “radioso” antecipado por Jiang Zemin. Ao intervir na cerimónia, o Presidente chinês disse que a transferência iria ficar “nos anais da história como um dia que merece memória eterna”. Depois de atravessar um século de vicissitudes, indicou que os compatriotas de Hong Kong tornaram-se os verdadeiros senhores desta terra chinesa.

Num discurso em que prometeu respeitar o “elevado grau de soberania”, Jiang Zemin afirmou que a RAEHK deveria “desenvolver gradualmente um sistema democrático adequado à sua realidade” e destacou a criatividade de Deng Xiaoping na criação do conceito “Um País, Dois Sistemas”.

“É uma festa para a nação chinesa e uma vitória para a causa universal da paz e da justiça”, referiu.

E de facto, pelo menos em Pequim, foi uma festa, com mais de 100.000 pessoas a assistirem à cerimónia na Praça de Tiananmen.

Da parte inglesa, o Príncipe Carlos disse que o “cumprimento da Declaração Conjunta é a chave para a continuação do sucesso de Hong Kong”. “A Grã-Bretanha está orgulhosa por ter estado envolvida numa história de sucesso como a de Hong Kong. Estamos orgulhosos pelos valores britânicos e pelas instituições que deixamos e que são a base do sucesso. Estamos orgulhosos pelos direitos e liberdades que a população gozará e tivemos o privilégio de estar associados a uma população talentosa e cheia de capacidades que criou as fundações que hoje deixamos”.

“Ambos somos parte de um futuro comum e estamos confiantes que os laços entre nós continuarão a desenvolver-se. Num mundo pequeno como o de hoje o papel de Hong Kong como porta da Europa na Ásia e vice-versa, reforçarão os laços entre as duas sociedades”, declarou.

Durante a noite, o Conselho Executivo provisório aprovou a Lei da Reunificação, que prevê restrições aos direitos civis anteriormente vigentes. Rita Fan, presidente do órgão, declarou a lei aprovada sem qualquer voto contra dos 60 deputados, menos de quatro horas depois da transferência. Um novo Conselho Legislativo seria eleito no espaço de um ano, conforme promessa chinesa.

Depois disso, Martin Lee, líder do Partido Democrático de Hong Kong, protestou numa varanda do Conselho Legislativo perante cerca de 1.500 apoiantes, apesar da proibição das autoridades, garantindo estar preparado para continuar a defender a liberdade em Hong Kong. “A chama da democracia foi acesa no coração do nosso povo. Não se apagará”, afirmou.

“Pela primeira vez na história, nós, a população de Hong Kong, somos donos do nosso destino”, disse o Chefe do Executivo Tung Chee-hwa, depois de ter sido empossado, assegurando que manteria a cidade vibrante e internacional, prevendo também um futuro “glorioso”.

Na primeira conferência de imprensa, no dia 3 de Julho, Tung Chee-hwa assegurou que as manifestações poderiam continuar a realizar-se desde que fossem pacíficas e legais e defendeu ser necessário haver “algum sacrifício de interesses individuais a favor dos interesses mais vastos da comunidades”.

Pouco mais de dois mil manifestantes desfilaram em protesto contra a falta de democracia na China, mas não se registaram incidentes e a polícia limitou-se a acompanhar os acontecimentos.

O protesto acabou por se diluir num dia marcado por festas e, mais uma vez, pela chuva.

 

COFRES RECHEADOS. Quando a China “recebeu” Hong Kong, os cofres de Hong Kong estavam recheados com 86,6 mil milhões de dólares americanos. Na altura, a região estava à frente da Alemanha, Singapura e EUA em termos de reservas financeiras, sendo apenas superada pela China, Japão e Taiwan.

 

DIAS BEM CONTADOS. Em Pequim, durante três anos um placar electrónico gigante contou os dias que faltavam para a transferência de soberania de Hong Kong. Depois, foi mudado para o sopé da Grande Muralha, como símbolo de longo período de reunificação da China, descrito no país como o “fim de uma humilhação” e “a realização de um sonho de várias gerações”. O 1º de Julho foi feriado nacional e motivou uma festa no Estádio dos Trabalhadores para 80.000 pessoas.

 

ORGULHO DO PCC. A transferência de Hong Kong coincidiu com o 76º aniversário da fundação do Partido Comunista Chinês (PCC), proporcionando à liderança um motivo suplementar de orgulho. O Diário do Povo apontava como facto indiscutível que sem o PCC teria sido impossível materializar o “regresso” de Hong Kong.

 

FACTURA AVULTADA. A festa da transferência incluiu uma parada de barcos alegóricos e fogo-de-artifício, que custou 12 milhões de dólares americanos ao governo britânico. Liza Minelli, Jeremy Irons, Jean-Claude Van Damme estiveram no território para a festa, que reuniu mais de 4.000 convidados. Por outro lado, mais de 6.000 pessoas participaram numa “rave” gigante no estádio de Kowloon, com Boy George e Grace Jones, enquanto em Lan Kwai Fong a festa já decorria há uma semana com forte afluência.

 

A COMITIVA PORTUGUESA. O Ministro dos Negócios Estrangeiros, Jaime Gama, liderou a delegação portuguesa na cerimónia de transferência de soberania. Fez-se acompanhar, entre outros, pelo ex-primeiro ministro Cavaco Silva, Pedro Catarino, embaixador de Portugal na China, Santana Carlos, chefe da delegação portuguesa ao grupo de Ligação Luso-Chinês, Rocha Vieira, a Presidente da Assembleia Legislativa de Macau, o Cônsul-Geral de Portugal em Hong Kong.

 

PARA A POSTERIDADE. Antes do iate real “Britannia” partir após a cerimónia oficial, com o príncipe Carlos e o governador Chris Patten, centenas de famílias aproveitaram para tirar fotos. Pela cidade, muitos cidadãos também fotografavam os brasões coloniais, que iriam também desaparecer, com os portões da mansão do governador, que o Chefe do Executivo Tung Chee-hwa não viria a ocupar, a serem os mais procurados.

 

A CHEGADA DAS TROPAS. Cerca de quatro militares do Exército Popular de Libertação entraram em Hong Kong seis horas após a transferência de soberania, em 400 camiões, dos quais 21 eram blindados. O contingente incluiu ainda seis helicópteros e 10 embarcações.

 

FESTAS EM MACAU. Em Macau, cerca de 1.000 pessoas, maioritariamente chinesas, reuniram-se no Largo do Senado para festejar, num evento organizado pela Associação dos Moradores. Depois da meia noite, houve fogo-de-artifício na baía da Praia Grande. A Xinhua também organizou uma actividade comemorativa no território.