Fátima Almeida*

 

Quando troquei a redacção pela sala de aula de uma universidade tinha pelo menos uma certeza: a de que nunca iria deixar de palmilhar as ruas de Macau nem parar de abrir janelas para que o vento levasse as palavras ao seu destino.

Sempre acreditei que a prática e a palavra são componentes importantes de quem aprende uma língua que se torna sua através de horas de esforço e dedicação, um dos poucos (senão o único) tipos de possessão saudável que consigo encontrar e compreender depois de passar um semestre com 18 alunos de Macau e da China Continental a aprofundar o que muitos já apelidaram de língua de Camões. Língua que, na verdade, de viagem em viagem, de nau em nau, é cada vez mais a do Ivo, do Daniel ou da Isabel, todos com nomes portugueses à frente de apelidos chineses. Por isso, quando fui desafiada pelo professor Francisco a ensinar português, fez-me logo sentido desenhar, para a cadeira de Português Avançado, um projecto final que levasse os alunos a conhecer o mundo lusófono e a questionarem-se, em português, sobre o mundo que os rodeia.

Assim, apresentamos neste jornal (casa à qual sempre torno e que acolheu de imediato a nossa iniciativa mostrando a sua generosidade para com os que nunca se cansam de aprender) uma série de trabalhos que mais não são do que o resultado dessa fé que os nossos 18 Camões levaram até porto seguro. A bordo da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, cada um ao seu ritmo, mostram parte do resultado de horas à conversa com as comunidades locais (a aprender e a ensinar); horas a ouvir relatos e absorver lições reais sobre diferentes fenómenos às vezes tão simples como a saudade – de cultura em cultura, velejando numa língua que sempre nos unirá.

Em meu nome, e sobretudo em nome dos alunos, que também mo pediram, expressamos a nossa gratidão a todos os que partilharam memórias, ideias e abraçaram este projecto proporcionando aos seus autores a oportunidade única de ir ao encontro do Outro de forma plural. Obrigada pelo tempo, paciência e por terem sido também um bocadinho professores nesta lição que é Macau, nestas páginas que alunos que frequentam o 4.º ano da universidade levam para a vida. Obrigada também, mais uma vez, ao Jornal Tribuna de Macau, que acolheu a ideia de partilharmos os textos, contribuindo para motivar jovens aprendizes.

Fica ainda o pedido de compreensão se algo estiver menos correcto: estamos todos a crescer. Os textos foram trabalhados e burilados, passo a passo, carregando força, vontade de fazer melhor e até magia. E porque é Natal juntamos ainda uma história alusiva à quadra, inicialmente escrita para crianças no âmbito da aula para um outro exercício que trabalhava a utilização de diferentes tempos verbais ao mesmo tempo que estimulava a criatividade.

Obrigada e Feliz Natal.

 

*Professora de Português (e Inglês) na Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau

 


Uma saudade distante

Érica Cen, Joy Li e Vanessa Amina

 

“Saudade”, a palavra mais profunda em português. Sempre com o sentimento ou o estilo da fatalidade. Pode ser deprimente e nostálgica. Suspira algo para os amados que já perderam e não retornam. Esta palavra sustenta um sentimento muito complexo. E, lembra-nos a “Mensagem”, de Fernando Pessoa, sobretudo na parte Mar Português, que mostra a saudade da maioria dos portugueses na época dos Descobrimentos que trouxeram glórias grandiosas, mas também levaram, ao mesmo tempo, as pessoas a aguentar as dores da saudade das famílias, às vezes eterna, tal como os versos que se seguem:

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantas filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

Um dos nossos entrevistados, um professor da Universidade de Macau, partilhou connosco uma definição de saudade que é um pouco mais realista e vai ao encontro desta sensação de saudade da glória por oposição à saudade dos que se perderam nessa glória. “Algumas pessoas de Portugal acreditam que a vida passada é melhor do que hoje em dia, mas eu não penso assim”, explicou Rui.

O professor de português fala que há uma saudade que está ligada ao regresso ao passado, como o facto das pessoas quererem voltar à época que pensam ter sido de grande conquista, já que representam um símbolo glorioso e esplêndido. No entanto, devemos ver a história com uma visão dialéctica. “Se há histórias boas também não podemos ignorar as más,” sublinhou. Ou seja, se só sentirmos saudades dos feitos do passado, sem observarmos o que também correu mal, é provável que mais facilmente sejamos preguiçosos e gananciosos, um cenário muito pessimista especialmente para os jovens.

Sem dúvida que o professor sente saudades da sua terra natal, mas sendo uma pessoa mais realista a saudade acaba por não ser apenas um sentimento relacionado com distância. Por exemplo, quando estava em Tianjing (norte de China), que é uma cidade completamente diferente das de Portugal, sempre sentiu falta do seu país. Mas, pelo contrário, quando veio morar para Macau esse sentimento não foi muito evidente, uma vez que aqui há muitos elementos que nos ligam à cultura portuguesa, como uma comunidade que fala a língua ou gastronomia, com várias coisas a acabarem por ser parecidas com a sua terra natal. Assim, a saudade não só se verifica com a distância física, mas também na distância mental e Macau é uma cidade com a qual os portugueses acabam, de certo modo, por se identificar.

 

Nostalgia ou fingimento da calma?

Ao questionarmos do que sentem mais falta de Portugal percebemos que uma terra com aspectos culturais do próprio país pode, em certos aspectos, também ser estranha. Alguns dos nossos entrevistados indicaram que sentem falta do mar de Portugal – o de Macau tem um cheiro desagradável –, mas não só.  Outros entrevistados também notaram  diferenças em relação ao meio ambiente e aos comportamentos. “Há comportamentos inaceitáveis em todas as sociedades, alguns deles são comuns a todas. A explicação pode não ter a ver com a cultura antiga, mas com a educação,” disse um dos entrevistados. Assim, quando vamos ao estrangeiro há aspectos inevitáveis aos quais nos temos de adaptar na vida quotidiana mas, ao mesmo tempo, deparamo-nos com a nossa identidade, já que a nossa própria cultura forma quem somos, o que pensamos, a maneira de ser e estar. Embora haja um elo forte entre Macau e Portugal, dado que Macau recorda a terra natal, em parte ainda é alheia para alguns portugueses. Depois de ouvirmos falar sobre a saudade veio-nos à memória um excerto de um romance chinês: “Ser nostálgico ou sentir a falta da terra natal é apenas um fingimento de calma na vida actual para ocultar os sentimentos de perda”.

 


Folclore no Coração de Macau e para o mundo

Daniel Tian e Ivo Wang

 

Enquanto os cantores entoavam canções folclóricas portuguesas, os outros  dançavam em roda. Até os meninos mais pequenos, seguindo o ritmo, pareciam entusiasmados: ora saltavam, ora balançavam o corpo, mostrando alegria. Esta cena levou-nos para uma qualquer festa tradicional de Portugal. Mas não viajáramos até aquele país. Tínhamos acabado de assistir ao espectáculo mais importante do ano para o Grupo de Danças e Cantares de Macau (GDCM), que subiu ao palco do 20.º Festival da Lusofonia realizado em Outubro nas Casas da Taipa.

O GDCM, cujo predecessor foi o Grupo de Danças e Cantares do Clube de Macau, grupo fundado em 1991 por pessoas da comunidade portuguesa de Macau, foi constituído em 2003 para a divulgação do folclore tradicional português, através da dança, música e cantares típicos das várias regiões de Portugal. Ao longo de 14 anos, mais de 300 elementos de diferentes nacionalidades e profissões associaram-se ao grupo. “Agora temos cerca de 60 membros, 25 portugueses, cinco indianos, e os restantes são chineses. Temos um senhor que é o mais velho com 80 anos e também muitos jovens”, afirmou Mira Dias, a coreógrafa do grupo. E parece curioso que um grupo criado por portugueses tenha na maioria participantes chineses, mas Mira Dias explica esta surpresa: “Os chineses gostam muito deste tipo de cultura. A cultura de Macau é uma mistura de ocidente e oriente e a dança folclórica é uma forma mais representativa de origem multicultural da nossa cidade.”

Nesta fase, o grupo não tem patrocinadores, portanto, as receitas de cada espectáculo são usadas para pagar a renda do espaço e outras despesas. Obtendo sucesso tanto a nível regional, como internacional, o GDCM participou em mais de 600 acções e espectáculos em Macau, Portugal, República Popular da China, Singapura, Malásia, Japão, entre outros. Em 1998, o grupo foi distinguido com a Medalha de Mérito Turístico.

Depois do último espectáculo, os bailarinos começaram mais um ensaio. Às quintas, eles juntam-se num salão de baile que fica num edifício de habitação. Embora ensaiem apenas uma vez por semana, os membros levam a sério cada ensaio. Professores, engenheiros, funcionários públicos, estudantes universitários trocam os seus habituais fatos e gravatas por uma dança folclórica e lá dentro tornam-se somente bailarinos, quase como se fossem profissionais. “No início, só vim cá para ter algumas aulas e depois apaixonei-me por esta dança tão viva. Eu faço muitos amigos no grupo. Além de praticar, estamos aqui também para nos reunirmos. Somos uma família”, disse um senhor que aderiu ao grupo há mais de uma década.

Mira Dias, nascida em Macau, começou a dançar quando andava na escola secundária. Como bailarina teve a experiência de dançar no Hotel Lisboa num grupo de profissional. Mas depois de se ter reformado, Mira continuou a dar aulas em duas escolas de Macau dedicando-se a cultivar o gosto pela dança folclórica nas novas gerações. Nos últimos anos, tem sido convidada para o Curso de Verão em Língua Portuguesa realizado pela Universidade de Macau, ensinando a dança folclórica aos jovens que vêm de vários países não só para conhecerem a viva cultura de Macau, mas também para a experimentar.

É verdade que a dança folclórica vem de Portugal, mas ela já se tornou uma marca indispensável da cultura de Macau. Diversidade e tolerância constituem o espírito fundamental da nossa cidade. À base disso conseguimos manter tradições preciosas até hoje, quer sejam orientais, quer sejam ocidentais. Assim é Macau.

 


Escola Portuguesa: um tesouro de Macau

Carolina Huang e Isabel Liu

 

Desde que chegámos reparamos que Macau é uma cidade que tem uma marca profunda de Portugal. E de imediato gostámos de passear pelas ruas e travessas, apreciando a paisagem natural e humana ao longo do caminho. Um desses dias, quando andávamos pela Península de Macau, os azulejos de estilo português numa parede atraíram a nossa atenção. Estes azulejos com figuras geométricas em branco, azul e amarelo pareciam flores coloridas que desabrochavam. Não só se tratava de uma bonita decoração, mas também da representação cultural de Portugal e estilo tradicional português. Foi nesse momento que tivemos curiosidade em entrar, descobrindo que tínhamos chegado à Escola Portuguesa de Macau.

O projecto educativo da Escola Portuguesa de Macau junta estudantes de culturas diferentes, seguindo a filosofia de “uma instituição aberta ao diálogo intercultural e solidamente implantada no tecido social dos macaenses”, promovendo a interculturalidade em Macau. Segundo os professores entrevistados, actualmente, a Escola Portuguesa de Macau tem um total 565 estudantes do 1.º ao 12.º anos, apoiados por 47 docentes, provenientes de 23 nacionalidades dos cinco continentes. Grande parte dos alunos é português e macaense, havendo também alunos chineses de Hong Kong e China continental, alunos lusófonos do Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde e Timor-Leste, alunos de países asiáticos próximos de Macau como Filipinas e Tailândia e alunos da Rússia, dos Estados Unidos da América, da Espanha e de outros países europeus.

Quando entrámos para as entrevistas, reparámos num cartaz que divulgava o Dia Mundial da Filosofia e uma actividade de exposição relacionada com a Filosofia, mostrando que a escola proporciona diferentes iniciativas como a oportunidade de tomar o paladar aos encantos e beleza da Filosofia. Por isso, na nossa perspectiva, esta escola não é só confinada às disciplinas obrigatórias, mas dá muita importância ao ensino mais abrangente e compreensivo.

Segundo a professora Laura, que acedeu à nossa entrevista, esta escola providencia uma oportunidade educacional aos alunos locais e respeita os hábitos deles, promovendo o sentido de pertença. Também apresenta o respeito pelos outros e o apreço pela diferença. Portanto, esta escola é potenciadora da solidariedade, da paz e da justiça.

De acordo com o projecto educativo do site oficial desta escola e as informações fornecidas pelo professor Ricardo, a Escola Portuguesa de Macau é actualmente a única escola em Macau que proporciona os currículos e cursos semelhantes aos de Portugal e um ensino em Língua Portuguesa.

Desde 2005, a Escola Portuguesa de Macau tem aberto cursos de Língua Chinesa (Mandarim) como disciplina obrigatória dirigida aos alunos do 1.º ano ao 12.º ano. Na realidade, para os alunos que não sabem falar a Língua Chinesa, uma das maiores barreiras é a comunicação com os chineses que não sabem falar uma língua estrangeira. Mas, através dos cursos, acabam por conseguir dominar a língua chinesa (Mandarim) a nível básico. Por isso, como a língua funciona como um meio essencial na comunicação cultural, a oportunidade de aprendizagem da Língua Chinesa permite-lhes uma integração social mais fácil em Macau.

Como o professor Ricardo referiu: ”Os jovens formados na Escola Portuguesa poderão entrar no mercado de trabalho de Macau no futuro e cada um dos estudantes contribuirá para toda a sociedade a nível educacional, económico e humanista”.

 


Uma ponte importante que fica para sempre                                  

Rita Chen e Rogéria Qiu

 

27 de Outubro. 15:00. Visitámos pela primeira vez, na Avenida da Praia Grande, o presidente da Associação dos Macaenses, Miguel de Senna Fernandes. Já sabíamos muito bem que Macau foi uma colónia de Portugal e que, por isso, cruza as culturas chinesa e ocidental. A comunidade macaense é um produto dessa fusão. E naquela tarde aprendemos que os macaenses, que falam português, têm uma ligação directa com os chineses, já que deles também descendem. Então, esta comunidade tem uma função importante para Macau ao absorver parte das duas culturas.

 

Parecem uma ponte

Antes, os portugueses não conseguiam falar chinês e os chineses não falavam português. Por isso, os macaenses desempenharam uma função muito importante na comunicação, a nível cultural e histórico. “Antes da transferência de poderes, o governo tinha muitos tradutores macaenses e ainda há,” recordou Miguel. Apesar da “influência da comunidade ter diminuído” e se falar cada vez mais a língua chinesa, a comunidade macaense continua a ser importante “porque acaba por estar nos dois mundos, a China e o mundo onde se fala português,” explicou. E verificámos que o macaense está “sempre muito à vontade nestes dois mundos”.

Hoje em dia, a língua chinesa também acaba por fazer mais parte da rotina da nova geração de macaenses porque os pais falam cantonense em casa e o uso de português acaba por ser menor. Mas antigamente aprendiam as duas línguas, tal como aconteceu a Miguel. “A minha mãe era chinesa e aprendi chinês com ela. O meu pai era macaense e sempre falei com ele em português”, contou, acrescentando que as famílias tanto celebram o Natal como o Ano Novo Chinês.

 

O intercâmbio cultural

A comunidade macaense organiza muitas actividades todos os anos como culturais e de solidariedade. António, chefe de cozinha, que vive há 20 anos em Macau, disse já ter participado em muitos eventos, tanto para a comunidade chinesa como para a macaense. Além disso, o também membro da confraria da comida macaense, explicou-nos que os pratos macaenses são uma mistura entre a gastronomia portuguesa e outras cozinhas e ingrediente asiáticos.

 

Diversificação cultural de Macau

Miguel de Senna Fernandes também nos contou que “a comunidade macaense organiza muitas actividades todos os anos”, como um teatro de patuá. Achamos que esta é uma forma de abertura forte para juntar as pessoas e manter a comunidade activa reforçando a sua cultura característica e partilhando-a.

Apesar de Macau ser uma cidade pequena acaba por ser difícil as pessoas reunirem-se frequentemente devido ao ritmo acelerado da vida. Por isso estas actividades podem melhorar a comunicação e a ligação entre as comunidades. “Através das actividades as pessoas juntam-se e começam a entender que existe algo que têm que proteger que é a nossa cultura. Aparentemente pode ser só festa, mas as pessoas têm que se juntar e comunicar,” enfatizou Miguel.

Como disse o Chefe do Executivo, Chui Sai On que, visitou a comunidade macaense no dia 9 de Fevereiro, os macaenses são parte de Macau há muito tempo. Por isso, frisou, “não importa o que aconteceu antes, acontece agora ou no futuro eles são uma parte valiosa e indispensável. O sucesso de Macau não pode ignorar as suas contribuições”.

Quando perguntámos “qual será o contributo desta comunidade para o desenvolvimento de Macau”, Miguel de Senna Fernandes sorriu e disse: “Vamos esperar!” Nós sorrimos também acreditando que esta cultura continuará a fazer de Macau uma região única e mais rica.

 


Ortografia: até onde vão os erros em Português?

Antónia Wang, Leonor HU, e Verónica Zhang

 

Desde que começámos a aprender a língua portuguesa temos reparado em vários erros nos avisos em Macau. Além do mais, quando procurámos alguém para praticarmos português descobrimos que era difícil encontrar. Tivemos dúvidas sobre os problemas que nos suscitaram um enorme interesse. Por isso, decidimos fazer uma pesquisa sobre o fenómeno.

Inicialmente pensávamos que os erros ortográficos resultavam de problemas impressão. A fim de verificarmos a nossa conjectura e chegar a uma conclusão mais fidedigna decidimos combinar pesquisa online com “entrevista de campo”.

Primeiro, procurámos pela respectiva informação na Internet e encontrámos uma tese, cujo autor também prestou atenção ao problema. “No Boletim Oficial da RAEM, n.° l foram detectados vários erros, o que mereceu grande atenção da Administração e da sociedade em geral”, escreve Zhao Yongxin, o que significa que o problema não é mínimo.

Segundo, duas falantes de português e chinês, que vivem em Macau, as pessoas tendem a reparar nestes erros. No início, nós perguntámos a uma senhora (que preferiu não dar o nome para a entrevista) se via alguns erros nos avisos e nas indicações em Macau. A senhora disse que reparou realmente e deu dois exemplos: uma placa em que estava escrito “Avenido” em vez de “Avenida” e um aviso na alfândega dizendo “É proibido graver, filmar….” em vez de “gravar”.

A senhora acha que a maioria dos erros é de escrita, mas também há alguns gramaticais. A seu ver, pode haver algumas razões históricas que expliquem este fenómeno. “Os técnicos chineses que faziam as placas não sabiam propriamente o português ou seja, não sabiam nada. E também na altura o governo português não chegou a fazer uma verificação dos erros”, disse apontando que a situação de da língua portuguesa não é muito optimista. De facto, o português é mais simbólico do que prático em Macau.

Outra entrevistada, uma portuguesa, que sabe falar um pouco de chinês, disse que algumas frases nos avisos em Macau não fazem sentido porque as construções das frases estão incorrectas. Falando sobre as razões para este fenómeno, notou que as duas línguas são bastante diferentes tendo ambas uma gramática muito complexa que é muito difícil de aprender. Na sua opinião, embora o português seja considerado como uma língua oficial de Macau, a maior parte dos cidadãos não fala. Por isso, a utilização do português não é muito frequente o que pode levar à ocorrência de algumas imprecisões.

Através das entrevistas e da tese, podemos ver que o fenómeno dos erros da língua portuguesa nos avisos em Macau não é raro e que as causas não são apenas as que inicialmente imaginávamos. Concluímos que a nossa ideia era incompleta e superficial. Além das hipóteses que levantámos, há mais motivos como razões históricas e a taxa baixa da utilização da língua portuguesa em Macau. Vamos continuar atentas a este fenómeno e a melhorar o nosso português aumentando a sua boa utilização no mundo.

 


Língua – Elo da Comunicação Cultural

Jéssica Xu e Viviana Lyu

 

Hoje em dia, visto que cada vezes mais portugueses escolhem mudar de ares, Macau torna-se numa boa opção: não só existem os antecedentes históricos culturais ricos de Portugal como também há uma integração da cultura tradicional com características chinesas. Apesar dos aspectos positivos há um problema: a barreira linguística.

No trabalho diário, são necessárias mais pessoas que entendam o que os locais dizem, o que torna o trabalho mais duro. Mesmo os mais pequenos que estão habituados a ouvir e a falar português também enfrentam dificuldades por não conseguirem comunicar com outras crianças. Portanto, surge a necessidade de aprender chinês. Nesse sentido, questionámo-nos: quais são os sentimentos dos falantes nativos da língua portuguesa ao aprender chinês? O que é mais difícil? Ao mesmo tempo, no processo de aprendizagem, qual foi a sua maior conquista? E no ensino de chinês quais os aspectos que devem ser reforçados e melhorados? Para obter respostas, discutimos estas questões com falantes de língua portuguesa em Macau.

O primeiro entrevistado, Gilberto Silva, diz que não foi muito difícil aprender chinês, porque se mudou para Macau quando era pequeno. Nas suas palavras, a linguagem é como uma concha do pensamento, ou seja, o pensamento é o núcleo da linguagem, ambos estão intimamente relacionados, sendo a parte mais difícil da aprendizagem de uma língua a de transformar o pensamento.  Além disso, para Gilberto Silva, a educação de Macau ainda é tendenciosa a favor do sistema educativo chinês, menos prático, o que pode ser prejudicial para a aprendizagem de línguas, pois as crianças têm medo partilhar os pensamentos, o que, por conseguinte, faz com que seja mais difícil para elas aprender a língua.

Para compreender melhor os métodos de aprendizagem e os seus desafios também entrevistámos uma estudante de uma escola mais internacional, onde se aprende chinês. Joana, de 12 anos, natural de Macau, é filha de pais portugueses que, ainda antes dela nascer, decidiram vir trabalhar para Macau. Embora tenha começado a aprender a língua há três anos, Joana considera que dominar bem o chinês é muito difícil, dizendo falar apenas o mais essencial.

Já a sua mãe, de 39 anos,  acha que a língua chinesa é útil no trabalho e, por isso, começou a aprender há cinco anos. Contudo, em casa acabam por falar em português, sendo que, ao mesmo tempo, todos os colegas e amigos usam o inglês como língua de interacção. Assim, notamos que para falar chinês fluentemente não é suficiente frequentar apenas as aulas. A possibilidade de praticar a capacidade oral é importante, pelo que Joana deseja que se estabeleçam mais grupos para aprender chinês.

Com o avançar do tempo e o desenvolvimento de economia, mais falantes de língua portuguesa vão chegar à China. Como uma ponte da comunicação cultural, Macau também tem de assumir a responsabilidade de ensinar a língua chinesa aos nativos de português, pelo que ainda temos um longo caminho a percorrer.

 

Integrar para reforço do ensino

Cada moeda tem duas faces, e tendo assim como objectivo explorar esta questão da aprendizagem de uma língua de forma mais profunda, nós entrevistámos mais nativos portugueses para saber quais eram as diferenças de aprendizagem entre uma língua materna e a língua estrangeira. No processo de aquisição de uma língua, a compreensão oral e verbal, a leitura e escrita são quatro capacidades básicas. Através da análise das entrevistas, nós concluímos que todas as actividades de ensino são uma mistura de “conhecimento” e de “comunicação de sentimentos”. A comunicação de sentimentos, na nossa opinião, é incorporar a função positiva de factores emocionais no processo de ensino. Para que os falantes de uma segunda língua possam incorporar todos os factores, é necessário dar-lhes mais  atenção, ajudá-los a melhorar a sua integração na cultura Chinesa. Assim, acreditamos que se pode reforçar o ensino.

 


Festivais Chineses: um olhar lusófono

Estela Zhao e Júlia Cai

 

Quando começámos não foi fácil decidir o tema mas acabámos por ir conhecer “como os portugueses e macaenses se adaptam aos festivais na China”. Como o Ano Novo Chinês e o Festival da Lua são os mais representativos da cultura Chinesa, as nossas entrevistas focaram-se em perceber as experiências relacionadas com estes festivais.

Para encontrar os nossos entrevistados deslocámo-nos ao “Festival da Lusofonia”. Este festival revelou-se um bom lugar porque conhecemos muitas pessoas de diferentes países que falam português. Contudo, por questões de espaço e consistência, escolhemos apenas portugueses e macaenses. Em primeiro lugar, tínhamos receio e timidez de abordar as pessoas mas, gradualmente, descobrimos que estavam muito entusiasmadas, responderam às nossas perguntas muito positivamente e partilharam muitas das suas próprias ideias, o que nos permitiu fazer mais perguntas e ter uma compreensão mais profunda deste tópico.

Com as nossas entrevistas verificámos que com a chegada dos festivais chineses algumas pessoas sentem saudade dos seus familiares. Tanto o Ano Novo Chinês como o Festival da Lua significam reunião das famílias, e muitos chineses que vivem em Macau também regressam a casa, a saudade aumenta em relação a quem está longe. Esta descrição fez-nos lembrar alguns ditados famosos que definem este sentimento e são mencionados por estas alturas: Nas ocasiões festivas, mais do que nunca, pensa-se nos nossos entes queridos, mas inesperadamente eles não ficam sozinhos.

Mas saudades à parte, ao entrevistarmos pessoas de diferentes gerações, descobrimos que há diferentes modos de celebrar. Por exemplo, no Festival da Lua, os jovens festejam com amigos e costumam ir à praia de Hac Sa, partilhando o bolo da lua. Tal como os chineses! Os macaenses também passam este festival com as suas famílias: a admirar a lua cheia, a ver as lanternas, a adivinhar enigmas, a comer bolos da lua – estas são as suas tradições.

O Ano Novo Lunar também é um festival importante para os nossos entrevistados. Uma menina macaense disse-nos que agora vão ao restaurante para jantar e queimam incenso em casa. Também nos contou que no primeiro dia do ano deve-se fazer uma visita aos parentes e amigos e acender um panchão perto da igreja e edifícios de estilo europeu ou no templo de A-Ma. Ao mesmo tempo arranjam as roupas para os filhos e fazem um jantar com família. Isto porque há um costume que dita que as crianças precisam vestir as roupas novas no Ano Novo Chinês.

Conhecemos ainda com duas idosas que vieram para Macau há mais de 40 anos. Uma das entrevistadas descreveu detalhadamente a sua bela cidade, Açores, deixando-nos ver o sentimento de nostalgia. Mesmo que os membros da sua família também estejam em Macau, aquela ainda é a sua terra natal. Portanto, o Festival da Lusofonia deixa-as muito felizes. Este festival é como na sua cidade natal, rodeado por pessoas, comida e música portuguesas.

Deixando as suas memórias de Portugal, contaram-nos que em Macau também se reúnem para celebrar os festivais chineses com as suas famílias. Ao mesmo tempo, disseram-nos que vão partilhar com os netos as lendas desses festivais, um tipo de património e promoção cultural.

Ao longo do processo, ficámos satisfeitas ao ver que os portugueses que vivem em Macau conseguem adaptar-se à vida e aos festivais da China. Isso prova que Macau integra os elementos chineses e portugueses e que é uma cidade cheia de partilhas culturais.

 


Entre Macau e Portugal: entendendo fenómenos

Josefina Chau e Nádia Wong

 

Entender os fenómenos de uma cidade ou um país é uma maneira simples para sabermos quais são as diferenças entre dois lugares. A partir de alguns aspectos relevantes fomos capazes de entender melhor as questões que mais preocupam os cidadãos em Portugal e Macau. Através das cinco entrevistas que conduzimos com macaenses, portugueses e chineses, pudemos conhecer profundamente os pensamentos em relação a Macau e Portugal. Também compreendemos com precisão quais os problemas locais com que se deparam.

Segundo os nossos entrevistados, Macau é uma cidade comercial onde toda a gente ganha relativamente bem. De acordo com as informações oferecidas pela Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC), a mediana do salário dos trabalhadores locais é 20 mil patacas. No ranking mundial Macau fica em 6.º lugar enquanto Portugal fica em 39.º em termos de salários.

Olhando para os dois territórios, duas das nossas entrevistadas acham que o trânsito em Macau é o fenómeno com um impacto mais óbvio do que em Portugal. Segundo a imprensa de Portugal, o número total de carros era de 5,78 milhões em Portugal no final de 2015, isto quando, de acordo com os dados da DSEC, em 2017, havia 250 mil carros em Macau, pelo que, em comparação, Macau tem uma grande quantidade de carros face à proporção de população e área.

Segundo as nossas entrevistas, pudemos ainda constatar que o envelhecimento da população é um fenómeno que também preocupa, sobretudo em Portugal. Por exemplo, como os jovens portugueses não conseguem ver um futuro para si no seu país, muitos escolhem emigrar para outros países europeus quando acabam os cursos universitários. Em 2015, segundo dados da ONU, constantes do Relatório do Observatório da Emigração, publicado pela imprensa, 22% dos portugueses vivem no estrangeiro, causando um crescimento instável da população jovem. Portugal tornou-se, aliás, o segundo país da Europa com mais emigrantes.

Com as entrevistas aprendemos também que há uma disparidade evidente entre a riqueza  e pobreza: uns que possuem muitos apartamentos e outros que não têm capacidade para comprar um. De facto, há muitos habitantes de Macau que não conseguem comprar uma casa. O meu primo, por exemplo, escolheu morar em Zhuhai porque não tinha possibilidade de comprar uma casa em Macau. Na nossa opinião, também como residentes de Macau, temos de trabalhar mais embora não haja uma garantia de um ambiente excelente para viver – área espremida, trânsito com muitos problemas. As pessoas tendem, por vezes, a não viverem muito felizes mas têm de lutar pela vida e pela próxima geração. As respostas dos nossos entrevistados reflectem por completo os fenómenos sociais em Macau. No que diz respeito a Portugal, embora o custo da habitação e de vida não seja tão alto como em Macau, o envelhecimento da população é algo muito grave que preocupa as pessoas e, de facto, quando estudámos em Braga, também passeámos em cidades pequenas, descobrindo que ali havia mais pessoas idosas do que jovens.

 


O Manuel e o Fosforinho

Antónia Wang, Josefina Chau, Leonor HU, Nádia Wong e Verónica Zhang

 

Antigamente, rezava a história que, em Macau, na véspera de Natal, uma menina vendia fósforos nas ruas. Esses fósforos eram tão especiais que mesmo depois da menina ter morrido continuaram, como por magia, a ser distribuídos. Os fosforinhos que a menina deixou ajudavam as pessoas a realizar os seus desejos. A cada amanhecer do dia 25, os presentes apareciam, como desejado, em frente das casas de cada família, excepto na do Manuel. Mais uma vez, este homem, sem trabalho, abriu a porta, entusiasmado, para logo descobrir que não havia presentes à sua frente.

Olhando para as prendas e vendo a felicidade dos vizinhos, sentia inveja. Quando entrou em casa, o Manuel virou-se de repente e viu um fósforo em cima da sua cama. Tentou chegar mais perto e perguntou-se: “Que está isto aqui a fazer?”

Furioso, o Manuel pegou no fósforo e quis logo ir deitá-lo fora.

“Porque é que estes fósforos nunca funcionam comigo? Vai já para o lixo.”

Mas no momento em que ele estava a deitar o fósforo no caixote, ouviu uma voz: “Não me deixe, por favor.”

O Manuel ficou muito surpreendido e perguntou:

“Quem está a falar?”

“Sou eu, o Fosforinho,” respondeu a voz.

O Manuel baixou a cabeça e viu a forma de uma cara a aparecer no topo do fósforo. Ficou receoso.

“Como consegue falar?” questionou.

“Se tenho o poder de magia, por que não hei-de poder falar?” disse o Fosforinho.

O Manuel abriu bem os olhos. “Foi a menina da lenda que também te criou?” perguntou.

“Certo, fomos dotados da magia da menina. Se nos queimarem por completo as pessoas podem receber os seus presentes,” explicou o Fosforinho.

“Ai sim! Então por que é que eu não tenho presentes se também queimem um de vós por completo?” questionou o Manuel mostrando-se indignado e sentindo-se esquisito por estar a falar com um fósforo.

“Ah, tu não sabes! Só quando a força do desejo se mantém inalterada até nos queimarmos por completo é que este se realiza. Uma vez que alterou várias vezes o seu pedido e queria obter tudo, não pôde receber nada” explicou o Fosforinho.

O Manuel suspirou e esfregou a sua cabeça como se estivesse a meditar no problema. Depois de algum tempo, encarou o Fosforinho com um olhar tão confuso que os seus olhos pareciam moinhos de vento a rodar. Entretanto ia dirigir-se à gaveta dos acessórios.

“Não se chateie mais, já sei no que estava a pensar,” disse o Fosforinho quando viu a expressão e ação do Manuel. “Agora que sabe o segredo e está tão irritado quer acender-me para ver se consegue obter um presente, não é? Mas agora é impossível! Hahaha!” riu-se o Fosforinho. “Pode tentar. Mas vocês povos comuns não conseguem acender as criadoras magias desta maneira nem mesmo que se esforcem muito. É preciso um coração mais puro para o conseguir e os desejos que concedemos só funcionam no Natal.”

“Tá bem, tá bem! É a criadora magia! ‘Grandiosa’,” balbuciou o Manuel virando os olhos com desdém.

O Fosforinho ficou um pouco zangado e disse:“Se não acredita em mim e continua falar comigo com uma atitude rude, nunca conseguirá obter presentes!”

O Manuel pensou mais um bocado e decidiu dar ouvidos ao fósforo já que não tinha nada a perder.

“Ahh. Desculpe-me, desculpe-me. Vou ajustar minha atitude. De facto, eu queria sinceramente um presente! Posso fazer qualquer coisa para o obter, por favor!,” pediu o Manuel.

“Vou tentar ajudar,” disse o Fosforinho que começou a sentir uma ponta de sinceridade nas palavras do Manuel. Ele queria mesmo um presente. “Vou acender-me a mim mesmo para que faça um voto na próxima Véspera da Natal, mas repare, ‘um’ voto apenas desta vez!”

“Oh! Um milhão de graças por concordar. Então, antes disso, podia ajudar-me a encontrar o presente que eu realmente desejo mais? É que quero várias coisas todos os dias,” pediu o Manuel.

“Claro que sim! Vou analisar consigo,”  respondeu o Fosforinho.

Naquele dia, o Manuel e o Fosforinho continuaram a discutir a questão.

Enquanto caminhavam na rua, viram que toda a gente estava a saborear comida deliciosa. O Manuel ficou com fome e queria muito dinheiro para comprar tudo o que quisesse.

“Como obter bastante dinheiro num muito curto período de tempo?perguntou.

“Caso compre uma loteria, é provável que ganhe um generoso valor. É apenas provável,” disse o Fosforinho, “No entanto, não acho que seja uma boa maneira, uma vez que não vai valorizar o dinheiro obtido na loteria! Você só saberá importar-se realmente com o que ganha através do trabalho. Portanto, precisa de um emprego agora.”

Mas quase dois meses depois, no Dia dos Namorados, o Manuel pensava: Quero uma namorada. O Fosforinho leu o seu pensamento e falou com ele.

“Manuel, você realmente quer uma namorada? Então deve ser mais extrovertido e ir conhecer mais amigos. Encontrará uma mulher quando conhecer mais pessoas,” incentivou o Fosforinho.

Às vezes, o Manuel também queria um par de asas quando olhava os pássaros no céu. Tudo o que via à sua volta tornava-se um desejo, ou necessidade de possessão. O Fosforinho pregou-lhe uma partida: fê-lo imaginar uma cena em que estava a voar no céu, mas ficava sozinho e triste, sem conseguir entender os pássaros. De repente, o Manuel gritou: “Não! Não quero ficar sozinho!” Assim ele dissipou esta ideia.

O Manuel ia vendo que muitos dos desejos dependiam apenas da sua vontade e da maneira como olhava a vida. Com o passar do tempo, ele e o Fosforinho começaram também a construir uma amizade.

Entre aventuras e provações, chegou finalmente a véspera de Natal. O Manuel sabia que o Fosforinho se iria acender. De repente ele ficou triste, mas  ao mesmo tempo também estava ansioso por ver concretizado, pela primeira vez, um desejo seu nas vésperas de Natal. Nessa noite, o Fosforinho feliz por ter vivido estes meses com o Manuel, acendeu-se, tal como prometido, e proporcionou um ambiente sereno para que o Manuel se pudesse concentrar.

O Manuel olhou-o fixamente, colocou as mãos palma com palma. Em silêncio, esqueceu-se de todas as coisas que até então queria e apenas se lembrou de pedir:

“Quero que o Fosforinho me possa acompanhar nesta vida.”

Ao tentar evitar que o seu amigo se sacrificasse por ele,  desta vez, o pensamento do Manuel manteve-se inalterado até a chama se extinguir!