Entre amigos, o grupo é denominado como “Os Amotinados de Macau”. Reúnem-se há cerca de três décadas para assinalar o 25 de Abril e este ano voltam a promover um dos jantares que serão realizados esta noite, no território, para comemorar a data. Para Fernando Sales Lopes, um dos organizadores, sublinha a importância de iniciativas desde tipo, porque significa que os ideias da revolução dos cravos estão a ser recordados, algo que não pode deixar de acontecer

 

Liane Ferreira

 

Fernando Sales Lopes tem vindo a organizar anualmente um jantar de comemoração do 25 de Abril, um evento entre amigos que conta já com cerca de 30 anos. O grupo, que tem o nome informal de “Os Amotinados de Macau”, irá manter hoje essa longa tradição reunindo-se hoje no restaurante D. Galo, pelas 20 horas.

“Este jantar já tem muitos anos. Passei a ‘pasta’ a um amigo mais jovem, ao João Pedro, mas isto já tem perto de 30 anos. Quando começámos não se festejava o 25 de Abril em Macau. Nós tínhamos um grupo cultural, fazíamos teatro, música, e a partir daí é que se começou a fazer actividades de poesia e teatro sobre o 25 de Abril. E depois comemorávamos condignamente com uma jantarada”, recorda Fernando Sales Lopes ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, notando que hoje em dia o grupo inclui pessoas novas, sendo que outras já deixaram Macau.

Em referência aos jantares comemorativos promovidos no Clube Militar e no hotel Sofitel, este pela Casa de Portugal, considera que “quantos mais jantares houver melhor, porque quer dizer que mais gente está a comemorar o 25 de Abril e a conversar sobre isso”.

Apontando que uma das primeiras vezes em que houve um jantar oficial foi no tempo da administração do General Rocha Vieira, no Quartel de São Francisco, Fernando Sales Lopes recorda que “era uma coisa muito reservada, de fato preto”. “Nós éramos jovens e continuámos a fazer a nossa festa”, disse.

Ao longo dos anos, “Os Amotinados de Macau” têm mantido o mesmo espírito neste convívio que assinala uma data de grande significado para Portugal. “Contamos histórias, confraternizamos e comemoramos o 25 de Abril, porque é uma coisa que não podemos esquecer-nos de comemorar”, frisou, ao lamentar que “muitas pessoas se esquecem”.

“Costumo dizer que se estamos aqui hoje e Macau é como é deve-se ao 25 de Abril e a mais nada. Porque só depois disso é que foram reatadas as relações diplomáticas com a China e pudemos negociar, numa negociação decente de igual para igual, para que Macau seja o que é hoje”, salientou Sales Lopes.

Neste sentido, entende que o público deve ter chegado à conclusão que é “melhor falar destas coisas”, embora ainda persista uma falta de conhecimento sobre a Revolução, algo que se reflecte nas entrevistas aos mais jovens, por exemplo. “A culpa não é das pessoas, porque não nascem ensinadas. Há coisas que não podemos esquecer, é responsabilidade dos pais, dos avós, e muito das escolas”, afirmou.

“Vemos na Europa a ascensão da extrema direita e as pessoas perguntam como é possível. É possível, porque se andou a esconder, foram feitos uns filmes, começou o neo-liberalismo em que tudo era muito bom e esqueceram-se de tudo. Depois vieram as crises económicas e aqui começam as coisas”, referiu, indicando que “tudo isto reflecte falta de cultura, de história”.

“O 25 de Abril tem de fazer obrigatoriamente parte da nossa cultura, da mesma maneira que os Descobrimentos”, defendeu Fernando Sales Lopes.

Na sua opinião, o espírito do 25 de Abril “é revolucionário, é defesa da democracia, da república, do socialismo” e para comemorar isso basta haver uma reunião. “Não há um cardápio de práticas, porque cada um tem a sua ideologia política, mas o 25 de Abril não tem de ter uma ideologia política própria, porque é uma revolução que deu liberdade e deu tanta liberdade que até pessoas contra o 25 de Abril se podem manifestar contra ele”, declarou a este jornal.

 

Acabar com a guerra já era uma “grande coisa”

Questionado sobre o seu paradeiro durante a Revolução de Abril, Sales Lopes revelou que se encontrava a “fazer a revolução na Guiné”. “Estava na Guiné com camaradas, ocupámos a rádio, prendemos o governador. Fizemo-lo de uma maneira uma bocado louca, porque quando fizemos aquilo nem sabíamos se em Lisboa tinha resultado”, relatou Fernando Sales Lopes, que chegou ao território em 1986 para continuar a trabalhar na rádio na TDM.

Segundo contou, o capitão acordou-o a dizer o que se passava e foi à procura de antenas de rádio para tentar perceber a evolução da situação em Lisboa, se o golpe tinha sido efectivamente concretizado. “Se não tivesse resultado em Lisboa, não havia perdão”, afirmou.

“Se o 25 de Abril não fizesse mais nada, acabava com a Guerra Colonial, o que já tinha sido uma grande coisa. Quando era adolescente pensava onde é que ia morrer e para onde é que ia fugir. Isso não é normal e não cria gente sã para a vida”, destacou.

Na sua opinião, “estava toda a gente farta da guerra”. “Quando se soube oficialmente do 25 de Abril, os militares encostaram as armas para ir embora. Já nem era possível reatar a guerra, porque ninguém queria, não significava nada, toda a gente queria que acabasse e ainda por cima só servia para satisfazer interesses de alguns”, sublinhou.

 

Cantares de Abril e jantares

Além deste jantar mais íntimo, a Casa de Portugal vai realizar o jantar comemorativo habitual, este ano no Sofitel Ponte 16, onde irão ser entregues os prémios do concurso 25 de Abril e haverá música ao vivo.

“Estes prémios distinguem trabalhos de artes plásticas, visuais e outros suportes”, começou por dizer Diana Soeiro, coordenadora da Casa de Portugal ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, acrescentando que a instituição tem “noção” de que é preciso divulgar mais os prémios, por isso este ano foram abertos a crianças a partir dos 12 anos.

Além do concurso, as actividades da Casa de Portugal de comemoração da Revolução dos Cravos contaram com o concerto da banda portuguesa “Os Azeitonas” e a exibição do filme “Cartas de Guerra, no Cinema Alegria, no dia 22 de Abril. O jantar de hoje marca o culminar dos festejos.

“Normalmente, temos 120 participantes e estamos a ter inscrições de última hora, por isso acredito que vamos chegar ao mesmo número”, disse Diana Soeiro, acrescentando que o evento vai contar com a presença do Cônsul-Geral de Portugal em Macau e Hong Kong. A escolha do lugar está ligada à vontade de experimentar um local novo e ter a oportunidade de oferecer um espaço ao ar livre.

À mesma hora, no Clube Militar, outro grupo de pessoas, composto por Manuel Geraldes, José Silveirinha, Lurdes Sousa e Zélia Carneiro, organiza um jantar de confraternização “em ambiente português” em que a ideia é levar um amigo e um poema.

A Escola Portuguesa de Macau também não passará ao lado da Revolução dos Cravos, realizando uma sessão de “Cantares de Abril” pelos alunos do 3º, 4 e 5º ano, a partir das 12:45. Durante a semana serão expostos trabalhos dos estudantes.