Tracy Choi apresentou ontem o seu primeiro filme, Sisterhood no Festival Internacional de Cinema de Macau. A realizadora local quer levar a produção até Taiwan e considera que esta é a “altura certa” para o fazer já que a Formosa está a debater a questão da igualdade de direito ao casamento para os casais homossexuais

 

Inês Almeida

 

O regresso conturbado a Macau de uma jovem que partiu para Taiwan e as recordações de uma amizade com outra jovem na altura da transferência de soberania de Portugal para a China compõem a história de Sisterhood, a primeira longa-metragem de Tracy Choi, ontem apresentada no Festival Internacional de Cinema de Macau.

A realizadora local considera que a experiência de produzir o seu primeiro filme foi “entusiasmante”. “Foi a primeira vez que integrei uma produção assim tão grande, que incorpora Macau e Hong Kong, já que muitos profissionais de Hong Kong me ajudaram a compor este filme. Estou muito feliz por ter tido a oportunidade de o realizar”, frisou Tracy Choi.

Ainda assim, admite alguns “desafios” relacionados com a própria organização de todas as tarefas e com a colaboração “com pessoas diferentes”, incluindo “artistas profissionais”, como alguns dos actores que fazem parte do elenco da película.

Algumas das cenas retratadas, como os momentos passados em salões de massagens, têm por base as memórias da realizadora. “Conheço mesmo algumas raparigas que faziam massagens nos anos 90. Claro que nessa época era ainda uma criança e elas eram como se fossem minhas tias”, explicoou Tracy Choi.

A cineasta pretende começar a distribuir o filme no próximo ano, sobretudo em Macau e em Hong Kong, para ser exibido no grande ecrã. Ainda assim, não exclui a hipótese de levar a película a outros pontos do mundo. “Estamos a tentar integrar festivais na europa e noutros locais”. “Quero que o filme também seja exibido em Taiwan, não só porque foi onde eu tirei o meu curso universitário, mas também porque adoro Taiwan”.

Além disso, destacou, “já que agora lá se está a falar muito sobre igualdade de direitos em termos do casamento, acho que é a altura certa para que o filme também seja lá exibido”, apesar de a longa metragem, orçada em cerca de cinco milhões de dólares de Hong Kong, não focar a questão da homossexualidade “de uma forma muito directa”. “[O filme] é mais sobre o amor e sobre as pessoas terem oportunidades iguais a esse nível, independentemente da sua orientação sexual”.

Consciencializar a população de Macau a este nível e até mesmo o Governo, para que as leis sejam alteradas, é um dos objectivos. “Ainda há um longo caminho a percorrer nesta matéria em Macau, mesmo que não se fale em direito ao casamento, mas apenas de igualdade perante a lei, porque esta ainda é uma realidade longínqua”, defendeu Tracy Choi, frisando a intenção de ajudar a que as pessoas de Macau fiquem “conscientes desta questão” e “falem sobre o assunto”, sobretudo por ainda haver um percurso longo pela frente.

Questionada sobre o apoio que recebeu do Executivo, a realizadora explicou que o Instituto Cultural deu um contributo de 1,5 milhões de patacas, o que considerou “um grande apoio”. “Além de dinheiro, em alturas em que foi preciso filmar em diversas localizações também nos deram muito apoio”.

 

Projectos futuros

 

Actualmente, Tracy Choi procura novos projectos para desenvolver, alguns deles também relacionados com a evolução de Macau. “Muitos deles poderão abordar as questões de género, que é um dos grandes temas do meu filme”. Ainda assim, revelou, o próximo filme deverá “ser sobre crianças em Macau”.

Eliz Lao, que representa um dos principais papéis, disse estar “honrada” por participar num filme exibido no primeiro Festival Internacional de Cinema em Macau. “O filme poderá chegar a diferentes partes do mundo, e isso é muito entusiasmante”, frisou a jovem actriz.

O papel que interpreta, garante, “é muito diferente” da sua personalidade, o que gerou algumas dificuldades. Ao mesmo tempo, referiu que “o filme passa-se nos anos 90 e, nessa altura, era pequena” pelo que teve a necessidade de “perguntar como eram as coisas para ter a certeza de que saberia representar bem a situação”. Ao mesmo tempo, sublinhou, passou algum tempo a ver “muitos filmes” e a tentar encontrar referências que a ajudassem a desempenhar o papel.

Em termos de expectativas em relação ao alcance da película, Eliz Lao acredita que “definitivamente há potencial” esperando que ele seja distribuído para várias zonas do planeta.

Por outro lado, a realizadora do filme falou sobre o Festival no qual o filme integra a categoria “Competição” lamentando o facto de, apesar de haver “muito bons filmes” haver dificuldade em assistir aos mesmo porque quando procura bilhetes “eles estão esgotados, mas depois as sessões não têm quase ninguém”. “Talvez isso aconteça porque a organização reserva alguns para certas pessoas mas depois elas não podem aparecer”, indicou Tracy Choi, defendendo que seja dada a possibilidade de comprar bilhetes directamente no local de exibição dos filmes. “Caso não haja muita gente a ir, talvez o público possa ter acesso a bilhetes no local, para que o público possa ver filmes diferentes”, o que também é importante para que o público comece “a aceitar melhor” outro género de cinema.