O realizador Tom McCarthy sublinhou, em Macau, a importância do jornalismo, um ofício que esteve no centro do filme Spotlight, que em 2016 conquistou o Óscar de Melhor Filme

 

“‘Spotlight’ foi uma celebração de um ofício. Não é só um grupo de pessoas a fazerem o seu trabalho e a fazerem-no bem, mas todo o processo doloroso. Há muitos especialistas online, mas não fizeram nenhuma investigação, nenhum trabalho, não entrevistaram ninguém, estão apenas a pôr coisas online. É por isso que temos de pagar a verdadeiros jornalistas, com experiência para fazerem o seu trabalho”, afirmou durante uma ‘masterclass’ no I Festival Internacional de Cinema de Macau.

O filme, sobre uma equipa de jornalistas do Boston Globe que revela abusos sexuais a crianças pela Igreja Católica, não foi a primeira experiência de McCarthy com o mundo da imprensa: em 2008 participou na série televisiva de David Simon The Wire, onde interpretou Scott Templeton, um jornalista de ética duvidosa.

“David Simon foi jornalista durante 15 anos, adorava a redacção, adorava jornais, adorava o poder da imprensa, tinha grande respeito pelo que representava. A sua paixão pela imprensa era tão contagiosa que, apesar de nunca ter pensado revisitar [o tema] com o meu próprio trabalho, quando o fiz usei muito do que fiz com o David e da forma como ele falava sobre isso”, recordou o realizador.

Foi daí que surgiu o seu respeito pela classe: “É uma vocação, [os jornalistas] não enriquecem, a maioria não fica famoso, não tem filmes feitos sobre eles. Mas têm algo no seu ADN, têm de saber a verdade, têm de a descobrir. Acho que isso é incrivelmente nobre”.

Apesar da actual crise em torno dos ‘media’, McCarthy acredita que ainda “há espaço” para bom jornalismo, que tenha o impacto que a história verídica do Boston Globe teve em 2002, e considera que a crítica que “poderosos” – numa referência que abrangeu Donald Trump – lançam aos ‘media’ vem comprovar o seu papel vital.

“Quando temos líderes políticos, Presidentes eleitos, a dizerem à maioria do país ‘Não acreditem neste jornal, é mau, é mau, é mau’, (isso acontece) porque as pessoas poderosas não querem ser escrutinadas. Sempre foi assim”, afirmou.

O realizou apelou ao envolvimento do público, que deve seleccionar a informação que consome.

“Nós, os cidadãos, temos mesmo de trabalhar para perceber o que anda aí, não podemos ser preguiçosos. Temos de fazer a nossa parte e não acho que estejamos a fazê-lo. Se a imprensa pode ter impacto? Tenho de acreditar que sim, porque precisamos disso”, disse.

Durante a ‘masterclass’ McCarthy falou também sobre o seu filme “O Visitante”, de 2007, sobre um professor universitário, viúvo e solitário, cuja vida, por acidente, se cruza com a de um casal de imigrantes ilegais.

“Foi quase um filme à frente do seu tempo, quando não estávamos a ter essa discussão (sobre imigração). Agora estamos e não somos só nós (norte-americanos), são todos os países. Espero que o filme nos lembre que o que não podemos perder, por entre o medo e a discussão e enquanto tentamos encontrar uma solução, que é a nossa humanidade”, sublinhou.

Olhando para “Spotlight” e “The Visitor”, o realizador e actor disse acreditar que o cinema e a televisão têm o poder “de abrir uma discussão”.

“Quando fazemos um filme que tem um tema ou mensagem política, há um momento em que começamos a falar disso. Há um enorme espectro de filmes políticos e sociais e todos têm diferentes abordagens. Nos meus, acho que é tentar encontrar a Humanidade”, indicou.

McCarthy falou ainda sobre as crescentes dificuldades da indústria, onde proliferam os filmes de super-heróis.

“O mercado está a encolher, é cada vez mais difícil. Não posso culpar ninguém por fazer filmes da Marvel, todos os actores que conheço estão num [filme desses]. Neste momento, toda a gente que conheço é um super-herói. Não tenho ressentimentos em relação a isso. Mas espero que possamos continuar a fazer filmes que tenham um pouco mais de complexidade adulta”, apelou.

 

Um multifacetado homem do cinema

Thomas Joseph McCarthy (Nova Jérsei, 30 de Janeiro de 1966) é um actor, realizador e guionista americano que participou em muitos filmes como Meet the Parents e Good Night, and Good Luck e o famoso Flags of Our Fathers para além de programas de televisão como The Wire e Law & Order. Formado na New Providence High School em New Providence, e na Yale School of Drama McCarthy  em 2003 estreou-se na realização com The Station Agent (2003), que também escreveu, tendo vencido o BAFTA de Melhor Roteiro Original. A sua segunda longa metragem como realizador, The Visitor (2008), venceu o Independent Spirit Award de Melhor Realizador. O seu terceiro filme foi Win Win (2011), que também teve muito êxito . escreveu e dirigiu os filmes independentes The Station Agent, The Visitor e Win Win. Em 2010 foi indicado para o Oscar de Melhor Guião Original por Up, mas a sua coroa de glória surgiu este ano quando venceu o Oscar de Melhor Guião Original por Spotlight que também realizou tendo recebido vários prémios por essa realização.

 

JTM/Lusa