O realizador Ivo Ferreira prepara-se para abraçar o seu mais recente projecto, “Hotel Império”, que terá como cenário a fusão e riquezas culturais próprias de Macau, através de uma narrativa cuja erosão entre passado e presente acaba por ser harmoniosa. As filmagens arrancam em Fevereiro, com uma equipa oriunda de vários lugares do mundo

 

Catarina Almeida

 

No início de Fevereiro do próximo ano começam as filmagens da nova longa-metragem do realizador português Ivo Ferreira intitulada “Hotel Império”, uma história onde o passado e o presente se cruzam e a destruição pode culminar num final positivo. “O filme prende-se com a destruição e a erosão e de que forma isso poderá unir vizinhos que normalmente não se falavam”, disse. “Pode ser um bocadinho romântico mas o filme gravita nessa ideia”, acrescentou o director de “Hotel Império”.

Além disso, ressalvou, “não tem nada a ver com saudosismo de uma espécie de império, antes pelo contrário, porque sou muito mais feliz nesta Macau de hoje. É uma coisa em contracorrente desta modificação tão rápida da sociedade”.

Tal como o nome do filme sugere, o espaço físico central em todo o enredo passa-se num hotel e também num casino flutuante que será o local de trabalho de Maria, a personagem principal da história e que será interpretada por Margarida Vila-Nova.

“É um grande desafio. A Maria é uma portuguesa que vive em Macau” mas que “está confusa e com quem tem uma forte relação com o pai”, explicou a actriz.

No casino flutuante, Maria canta fado e outras mulheres fazem espectáculos sensuais. Nesse lugar, onde tudo acontece, a personagem de Margarida Vila-Nova conhece Chu, papel interpretado pelo actor taiwanês e britânico, Rhydian Vaughan. “Mesmo que o filme seja filmado em Macau é muito mais do que a relação com Portugal”, disse o actor.

“Está tudo a correr tão rápido e o meu coração não consegue acompanhar tudo com esta equipa linda e maravilhosa”, referiu Rhydian Vaughan, que integra um elenco bastante multicultural com actores locais, de Hong Kong, Portugal, entre outros.

Questionado sobre o casino flutuante que será uma das chaves de todo o enredo, Ivo Ferreira apenas confirmou tratar-se de uma “parte muito importante do filme”. “Não vou revelar muitas coisas sobre a história porque depois perde a graça”, mas ainda assim revelou que “o hotel existe em Macau só que não posso dizer qual é”. “É uma espécie de salão de baile onde a comunidade vai frequentemente”, antecipou.

Quanto ao hotel propriamente dito, o director português explicou que a particularidade assenta no facto de se transformar num local habitado pelos clientes de outros tempos. “É um bocadinho a história de Macau no sentido em que muitos de nós viemos para cá e depois acabámos por construir casa. Tem uma carga simbólica sobre Macau e é um hotel que vai ter de ser destruído para ser mais moderno”, contou Ivo Ferreira.

Além disso, destacou ainda que com o novo filme não se pretende transmitir uma determinada mensagem até porque vincou: “Não trabalho para significados mas para significantes”. Contudo, “o filme tem muito o sabor de Macau, mas daquele que invento. Construo mundos, a minha história e o meu Macau”, acrescentou Ivo Ferreira notando que apesar do filme estar numa fase inicial já “há imensa curiosidade”.

“Acho que vai pôr Macau no mundo de uma forma mais apetitosa que não só relacionado com o jogo”, disse o realizador.

O projecto que começou com 1,5 milhões de financiamento do Instituto Cultural conta actualmente com apoios na ordem dos nove milhões e que torna este projecto cinematográfico multicultural, não só em termos de elenco.

Face a alguns constrangimentos, Ivo Ferreira entende que filmar em Macau é um “desafio enorme” porque “há uma espécie de sensibilidade dentária na cidade em relação a filmar e que parece uma espécie de intrusão. E por isso é realmente uma cidade particularmente difícil de filmar (…) mas quero acreditar que vai ser cada vez mais fácil”, rematou.

Segundo o produtor Luís Urbano, o filme em causa “não é a maior co-produção mas é certamente a mais longe que já liderei. Na estrutura financeira temos várias empresas – alemã, libanesa, entre outras. Ainda não posso dizer se será um grande filme mas tenho a certeza que nos vamos divertir muito”, disse, anunciando que a longa-metragem deverá ficar pronta até ao final de 2017.