1.Primeira declaração de interesses:

Não sou fã dos desportos motorizados, apesar de ter pertencido a uma Comissão do Grande Prémio nos finais dos anos 80, quando era presidente o saudoso dr Henrique de Senna Fernandes.

Era uma altura em que quase todos os membros pertenciam aos diferentes serviços com umas duas excepções que eram meros cidadãos. Eu era um deles.

Só fui à primeira reunião, que tinha uma longa agenda.

Para minha surpresa, quando chegou às 17.30, ainda só tínhamos resolvido uns poucos pontos dos trabalhos, o presidente propôs adiar a reunião para o outro dia.

No meu desconhecimento, ainda recalcitrei.

-“Se alguém está cansado ou com fome, suspende-se por meia hora e pedem-se umas sandes e continuamos a resolver o resto”.

Enérgico, como o nunca tinha visto (para quem o não conheceu, é preciso dizer que Henrique de Senna Fernandes era uma homem doce, que se dava com tudo e com todos) ele acabou a sessão , levantou-se e saiu da sala.

Só cá fora me explicou que, sendo a maior parte dos membros funcionários públicos, a reunião tinha que acabar à hora da saída .

Achei que era um desperdício de tempo e nunca mais lá pus os pés, o que foi um alívio porque motos e automóveis a correr não é o tipo de desporto que me agrada.

 

2.Segunda declaração de interesses:

Sou um dos muitos residentes que vê a cidade “de pernas para o ar” por causa das provas do Circuito da Guia. Os incómodos para as pessoas que aqui vivem não são apenas na semana do Grande Prémio, quando alguns têm que sair de casa antes do encerramento do circuito, há ruas cortadas e sentidos habituais que são alterados.

Nas semanas que o antecedem há trabalhos por todo o lado e se é verdade que algumas partes do circuito recebem novos pisos (o que até é positivo) é cedo que o habitual trânsito sofre alterações.

Nada que me incomode pessoalmente, porque há “sacrifícios” que faço de boa vontade, mas sei que a outros residentes nem se lhes pode falar do Grande Prémio sem ouvir umas palavras de rejeição, e não são poucos que aproveitam para dar uma saltada ao exterior, uns por causa do aumento da multidão, outros porque o barulho dos escapes lhes retira a habitual tranquilidade.

 

Houve de tudo

Dito isto, tenho que reconhecer que o Grande Prémio de Macau é um dos momentos especiais desta terra. Sem me meter nos detalhes da organização de que, como atrás se percebeu, nada sei, acho que traz até nós um conjunto de diferentes turistas, constitui-se numa boa promoção internacional, é economicamente favorável e estrategicamente importante no caminho da diversificação, de que afinal foi pioneiro, pois há 63 anos não se falava disso, pelo contrário a aposta era no incremento da indústria do jogo.

A edição deste ano, então, foi um grande espectáculo! Houve de tudo: provas emocionantes em que os milésimos de segundo eram a diferença entre ganhar ou perder, brilhantes momentos de condução de mota num circuito de arrepiar só de ver, outros momentos em que a inexperiência e a adrenalina dos pilotos levaram vários automóveis às barreiras, dramas de fazer recear o pior com carros pelos ares, milhares de pessoas a vibrar, etc, etc, etc, como fomos contando nas páginas do suplemento diário que o JORNAL TRIBUNA DE MACAU foi publicando.

Por tudo isto, pelo incrível traçado do circuito com aquela arrepiante parte alta e uma ultra veloz parte baixa, pelo ambiente de camaradagem e interacção entre pilotos e a população, como não se vê noutras provas, o profissionalismo com que algumas jovens fazem de modelos e especialmente pelo entusiasmo com que tantos, em Macau, Hong Kong e China aguardam por este fim de semana de corridas, considero que valem bem a pena os sacrifícios que os residentes fazem para que Macau tenha o seu Grande Prémio.

E que todos esperamos, possa ser melhor, ano após ano…

 

J.R.D.