Houve de tudo um pouco nesta edição do Grande Prémio de Macau. Uma grande festa portuguesa, uma fantástica corrida de motos e muitas situações que, mesmo não sendo inéditas merecem reflexão. De todo o modo, um êxito com 81 mil espectadores

 

SILVA PIRES

Especial para o JTM

 

As duas vitórias portuguesas, que ficam para a história, a festa que originaram entre a comunidade portuguesa de nascidos ou radicados em Macau, são um dos aspectos marcantes da 63.º edição do Grande Prémio de Macau. A “dobradinha” inédita é difícil de repetir e o brilhantismo dos triunfos de António Félix da Costa e Tiago Monteiro constitui importante reforço dessa memória para o futuro. Porque foi brilhante a forma como os pilotos portugueses ganharam, respectivamente, a Taça Mundial de Fórmula 3 e a Corrida Guia integrada na TCR Series.

Nem tudo correu sobre rodas, porque as inevitáveis paragens devido à dificuldade que representa “limpar” a pista depois de um acidente, e houve muitos, originaram paragens que, nalguns casos, foram prolongadas em demasia, tiraram ritmo ao espectáculo, desesperaram pilotos – é complicado ter uma corrida interrompida cerca de uma hora, sobretudo quando outra, antes, esteve suspensa 45 minutos! – obrigaram mesmo a alterar o programa.

Dir-se-á que são contingências próprias de um circuito urbano, mais ainda de um traçado com as particularidades de Macau. Acrescente-se ser difícil admitir a possibilidade de fazer muito melhor e que, nesta terra onde impera a indústria do jogo, se estará sempre sujeito a uma lotaria. Ainda assim, importa continuar a reflectir, a procurar mais e melhor, pois os meios parecem não faltar. E a vontade também não.

 

Êxito de bilheteira

Se tudo isto seria sempre importante, depois do novo êxito de bilheteira, com cerca de 81 mil espectadores no circuito, fica provado à saciedade que o Grande Prémio de Macau, além de grande cartaz promocional do território é um acontecimento maior. E faz parte da vida da cidade, cujos habitantes, na esmagadora maioria, parecem continuar indiferente aos transtornos que ele causa na vida de quase todos, alterada durante quatro dias em que o quotidiano se torna ainda mais febril.

Impõe-se por isso reforçar a aposta, jogar mais ainda na imagem externa das corridas na Guia, acautelando a presença de grandes nomes, “conquistar” a FIA para a ideia de que Macau continuará a ser palco privilegiado para algumas grandes competições (F1 excluída, claro), que não haverá falta de apoios. E que tudo se fará para projectar mais ainda o espectáculo, conquistando maior número de televisões.

É fundamental!

No plano desportivo, também houve coisas menos bem. Desde logo, o facto de a corrida de GT – Taça Mundial da FIA – ter ficado limitada a quatro voltas.

Estivemos uma hora à espera que fossem reparadas as protecções na Curva dos Pescadores, destruídas pelo despiste de Ricky Cappo. Foi um enorme azar, verdade, mais ainda pelo ineditismo do final. O vencedor acabou de rodas para o ar, na sequência de um dos mais espectaculares acidentes alguma vez presenciados em Macau. O belga Laurens Venthoor, que veio aqui literalmente “voar” com o Audi R8 LMS, não ganhou para o susto e até ficou “atordoado” com a vitória, confirmada depois de ser ultrapassado, momentos antes do seu “estoiro” monumental e arrepiante.

Houve alguma surpresa, mas nada de polémica, afinal regras são regras. E estava tudo explicadinho no comunicado da FIA.

 

Lições de português

A corrida ganha por Tiago Monteiro também não esteve isenta de problemas. As duas mangas de dez voltas deram uma corrida mais curta (45 minutos de paragem), mas, neste caso, houve outra competição, muita adrenalina em pista e, no final, a vitória categórica do português que se “vingou” do azar de 2014, quando liderava destacado e foi derrotado pela direcção do seu carro a três voltas do fim.

Em crescendo, seria ainda mais “limpa” a corrida de Fórmula 3. E que corrida! Veteranos e jovens “tigres”, deitaram-se à luta com entrega superior e grande coragem. Cada passagem na curva do Hotel Lisboa foi um espectáculo, pelo desafio de adivinhar quem ia aguentar a travagem, ganhar a trajectória, sair na frente. E, na curva do Mandarim, o frisson nunca foi menor.

António Félix da Costa fez uma corrida sensacional, saiu na frente, perdeu a liderança no primeiro embate no Lisboa, desfez as dúvidas à sétima volta, “arrumando”, com a sua experiência, a juventude do seu companheiro de equipa Sette da Câmara. E no final ainda teve de pôr em sentido o sueco Felix Rosenqvist, que veio de sexto a segundo e tudo fez para assinar o ambicionado tri. O português não esteve pelos ajustes e chegou mais de segundo e meio antes. Uma lição de pilotagem.

E como, às vezes, os últimos são os primeiros, recorde-se o espectáculo fora de série da corrida que assinalou os 50 anos das motos em Macau. Houve três comandantes e, no final, um trio separado por 345 milésimos de segundo! Ganhou Peter Hickman, à frente de Michael Rutter que, aos 44 anos (!), viu assim fugir-lhe, outra vez, a nona vitória em Macau; Martin Jessopp foi o terceiro.

Mas o que estes três homens fizeram, aos comandos das suas BMW, no Circuito da Guia, não tem explicação.

Talvez por isso, Rutter tenha dito que até pisou as marcas…

Pisaram todos, num desafio aos limites que foi, simplesmente, brilhante de tão assustador. Uma corrida para mais tarde recordar!