No balanço do campeonato da II Divisão, o treinador da Casa de Portugal diz que a equipa não devia ter sido derrotada na secretaria, obrigando o clube a lutar pela manutenção na derradeira jornada. A formação do Consulado alcançou objectivos

 

Vítor Rebelo

 

O segundo escalão do futebol de Macau chega hoje ao fim, depois de 18 jornadas em que a esmagadora maioria das equipas lutou em “dois sentidos”, para tentar subir e ao mesmo tempo escapar da despromoção. As diferenças foram sempre muito pequenas e apenas nos extremos da tabela classificativa houve decisão com alguma antecedência.

O Hang Sai arrecadou o título de campeão, cotando-se como a formação mais forte, num clube que claramente investiu para ascender à Liga de Elite, reforçando-se com alguns jogadores de bom nível, como é o caso do sul-africano Samuel Ramossoeu, antigo jogador do FC Porto e do Ka I.

No fundo da tabela, o Ieong Heng desde cedo mostrou grandes dificuldades, não tendo conquistado qualquer ponto em todo o campeonato.

De resto, tudo esteve sempre em aberto (e continua), numa liga emocionante, como não há memória no futebol de Macau em qualquer uma das divisões.

A última ronda teve já quatro jogos e as primeiras grandes emoções deram-se na passada quarta-feira, com o “clássico” Casa de Portugal-Consulado, recheado de gente portuguesa, com macaenses e brasileiros à mistura.

A maior pressão estava na formação de Pelé, que não podia perder (empate servia), sob pena de ir parar à III Divisão. Por sua vez, o Consulado ainda sonhava com a subida, em caso de vitória, mas sempre dependente de resultados de terceiros, concretamente da partida agendada para hoje, entre os Serviços de Alfândega e o Tim Iec.

Antes do desafio entre os dois conjuntos de matriz portuguesa, já se sabia que a Casa de Portugal havia sido derrotada, na secretaria (3-0), numa decisão da Associação de Futebol de Macau, em virtude do “onze” luso ter utilizado, durante cerca de cinco minutos, um quinto estrangeiro em  simultâneo, o que é contra os regulamentos.

A retirada dos três pontos na partida em que a Casa de Portugal tinha ganho, em campo (3-2) à Alfândega, atirava os pupilos de Pelé para fora da luta pela subida e colocava-os mesmo em situação de descida (com 24 pontos), num confronto principalmente com Chuac Lun. A Casa de Portugal acabou por superar o Consulado (4-1), respirando de alívio no que diz respeito à manutenção.

Mesmo assim, no final do desafio, Pelé era um técnico agastado com a decisão da Associação. “Continuo sem perceber porque razão a Associação nos tirou a vitória sobre a Alfândega. Foi um erro do delegado ao jogo, que teria de confirmar, segundo os regulamentos, quantos estrangeiros estavam em campo naquela altura. Também terá sido uma desatenção nossa, num jogo em que chovia bastante, mas o delegado tem a culpa maior e por isso a Associação, para não admitir o erro, acaba por nos penalizar. Por outro lado, a Alfândega não apresentou qualquer declaração de protesto no final do jogo, como mandam as regras e se o fizesse teria de pagar duas mil patacas. Daí que não concordo com a derrota que nos foi imposta na secretaria”, disse.

O treinador da Casa de Portugal mostrou-se assim desapontado pelo facto de a sua equipa ter perdido uma grande oportunidade de voltar à Liga de Elite. “Tínhamos muito mais possibilidades de ser segundos classificados e regressar à I Divisão. Para nós não há qualquer problema em subir, gostávamos de lá voltar”, sublinha Pelé, para quem a sua equipa ganhou bem “este jogo entre equipas portuguesas, com rivalidade salutar”.

A Casa de Portugal garantiu assim a manutenção, num campeonato espectacular, a duas voltas, muito equilibrado e que ainda não tem preenchida a segunda vaga para o acesso à Liga de Elite, que ficará definida no final do jogo entre a Alfândega e o Tim Iec, a realizar esta noite no campo da Universidade de Ciência e Tecnologia, às 19 horas.

A Alfândega parte na frente (30 pontos), bastando-lhe empatar, isto porque o Tim Iec soma 28.

 

Rotação de jogadores


Quem se misturava com estas contas era o Consulado, mas teria sempre de vencer a Casa de Portugal, o que não aconteceu. “Foi um bom jogo entre duas boas equipas portuguesas, com rivalidade a salutar, que acabou por pender para a Casa de Portugal. O futebol é mesmo isto, mas penso que correspondemos ao que nos tinha sido pedido”, disse o treinador João Mexia.

Causou alguma estranheza o facto da equipa que ostentou o nome oficial (emprestado) do Clube de Futebol Benfica de Macau, não ter apresentado neste último jogo (cuja vitória poderia até dar a subida), jogadores, habitualmente titulares, como Ruan Silva, Júnior, Marcos Modesto ou até Albertino Almeida, todos eles no banco de suplentes. “Desde o primeiro jogo que temos tido a preocupação de rodar todo o plantel, foi assim ao longo de todo o campeonato. Era essa a nossa filosofia quando iniciámos a temporada.”

Para Carlos Wilson, director desportivo, os objectivos da época foram alcançados. “Balanço extremamente positivo. Quero dar os parabéns aos jogadores, equipa técnica, porque cumpriram na íntegra os objectivos que tínhamos traçado para a II Divisão. Temos um grupo fantástico, unido e coeso, o que tornou mais fácil a concretização desses objectivos. Desde o início sabíamos o que queríamos e afirmámos isso na conferência de imprensa de apresentação do nosso plantel, definindo desde logo o objectivo, que era a manutenção. A juntar à permanência ainda conseguimos chegar aos quartos-de-final da Taça de Macau. Estamos satisfeitos,” concluiu o “braço-direito” do responsável principal pelo projecto, Vítor Sereno, que também jogou, mas faltou aos últimos jogos por se encontrar fora do território.

Desconhece-se agora o futuro desta equipa do Consulado, sabendo-se que irá depender certamente da própria continuidade ou não de Vítor Sereno como cônsul e da vontade do próximo representante de Portugal na RAEM dar seguimento a este projecto “desportivo-diplomático”.

Se tudo ficar como até aqui, voltaremos a ter os dois clubes portugueses, Casa de Portugal e Consulado, a participar no campeonato da II Divisão. Entretanto, os dois emblemas irão jogar na bolinha, “para conviver e jogar futebol”, como referiu Carlos Wilson.

Ainda relativamente às contas da segunda liga do “bolão”, fica a dúvida se na realidade o segundo classificado (Alfândega ou Tim Iec) vai mesmo confirmar a sua presença na Liga de Elite do próximo ano, isto porque se fala nos bastidores do futebol de Macau que aqueles dois clubes não pretendem abraçar um projecto de I Divisão, pelos custos (e goleadas) que isso acarreta.

Quanto ao Hang Sai, tudo aponta para que os seus “patrões” invistam mesmo numa equipa competitiva para a Liga de Elite de 2018.

 

*Jornalista