Felix Kirwa e Eunice Kirwa venceram a Maratona Internacional de Macau nas categorias masculina e feminina, respectivamente, reflectindo o domínio dos representantes do Quénia. A portuguesa Doroteia Peixoto ganhou a Meia Maratona pela segunda vez consecutiva. Participaram este ano 12 mil atletas, divididos pelas três distâncias

 

Vítor Rebelo*

 

A delegação do Quénia apresentou-se este ano ainda mais forte do que em edições anteriores e monopolizou praticamente o pódio na Maratona Internacional de Macau, quer no sector masculino, quer no feminino. A prova decorreu na manhã de ontem, com largada dos atletas bem cedo (às seis horas), sendo que o baixo nível de humidade, sem chuva e uma temperatura amena, acabaram por proporcionar a queda de recordes de percurso.

A competição, organizada pelo Instituto de Desporto, juntou fundistas com boas marcas e seria um deles, o queniano Felix Kiptoo Kirwa, a vencer a corrida masculina, num excelente tempo de duas horas, dez minutos e um segundo, mais rápido dois minutos e 43 segundos do que o principal rival e compatriota, Joseph Kyengo Munywoki.

Houve supremacia total do Quénia, que colocou mais dois atletas nos lugares imediatos, Henry Sang (terceiro, com 2.13.48) e Kiprotich Kirui (quarto, com 2.14.12). O primeiro não queniano seria o japonês Kenta Chiba, com o português António Sousa a terminar no 12º segundo posto, com 2.37.39.

Tudo se conjugava para que o recorde de percurso fosse batido, o que aconteceu e de forma categórica por parte de Felix Kiptoo Kirwa, que assim ultrapassou a marca de 2.12.43, que o seu compatriota Julius Kiplimo Masei detinha desde 2013.

Tal como em anos anteriores, não demorou muito para que o contingente africano, neste caso do Quénia, já que não houve atletas da Etiópia (o país tem estado algo apagado nestes últimos anos…), tomasse conta da corrida e cedo deixasse para trás adversários de outros países, como o japonês Kenta, o russo Ihor Russ ou o norte-coreano Pok Ryol Ri.

Já nos derradeiros dez quilómetros, sensivelmente, Felix Kiptoo Kirwa acelerou o ritmo, deixando fora da corrida os seus compatriotas, que seriam aqueles que poderiam fazer frente a este excelente maratonista, talvez dos mais credenciados, em termos de tempo, que a Maratona tem tido nos últimos anos.

Felix, de 23 anos, apresentou-se em Macau com uma marca de elevado nível (2.06.13), alcançada este ano na vitória na Maratona de Eindhoven, na Holanda.

Confirmou-se assim a qualidade deste fundista, que parecia destinado a bater o recorde de percurso e logo por uma boa margem. Com o triunfo, Felix Kiptoo Kirwa, que nunca tinha participado na Maratona de Macau, vai ter um estatuto ainda mais forte no futuro, tendo amealhado aqui a bonita soma de 62 mil dólares americanos de prémio acumulado (perto de meio milhão de patacas), ou seja, 40 mil como vencedor da competição, 7 mil por ter terminado abaixo das 2.14 horas e 15 mil pelo recorde de prova.

Ainda no que se refere a esta corrida dos homens, na qual sete quenianos integraram o “top ten”, o melhor representante de Macau foi Chong Ip Chan, em 23º, logo a seguir ao português António Sousa, com o registo de 2.38.28, o que acaba por mostrar a evolução do atletismo de fundo da RAEM, que habitualmente costuma colocar três ou quatro atletas entre os 20 primeiros.

 

Eunice é naturalizada do Bahrein e pode ser campeã olímpica

Na prova destinada às mulheres, igualmente a delegação queniana se apresentou com qualidade e por isso com ambições claras de vitória, ainda que desta feita com a intromissão de uma naturalizada do Bahrein, de origem queniana, da ucraniana Shafar Oleksandra e da mongol Munkhzaya Bayartsogt.

Tal como nos homens, cedo o grupo das atletas convidadas pela organização, se destacou, para nos últimos quilómetros Eunice Jepkirui Kirwa, de 33 anos, curiosamente irmã do vencedor do sector masculino, Felix Kiptoo Kirwa, alargar a passada, não dando grandes hipóteses às suas principais adversárias.

A atleta veio a Macau com o rótulo de vice-campeã olímpica no Rio de Janeiro e a aguardar confirmação da Federação Internacional, para saber se sobe “na secretaria” ao lugar de campeã, “roubando” a medalha de ouro à vencedora. Tudo isto porque a compatriota, de origem, Jemima Sumgong, acusou doping e foi já punida com quatro anos de suspensão.

Resta então saber se o ouro será oficialmente retirado à queniano e entregue a Eunice Kirwa, que em Macau atingiu a meta com a marca de 2.29.12, mais rápida quase quatro minutos do que a segunda posicionada, Shafar Oleksandra.

Logo a seguir, terminaram duas quenianas, Rodah Jepkorir (terceira, com 2.33.41) e Chemtai Rionotukei (quarta, com 2.34.16). As norte-coreanas Ji Hyang Kim e Kwang Ok Ri, ocuparam os lugares imediatos e à frente da mongol Bayartsogt.

A portuguesa Vera Nunes, de quem se esperava poder lutar pelo pódio, depois de um sexto lugar em 2016, acabou por ser de algum modo uma desilusão, quedando-se desta feita pelo nono posto, com a marca de 2.37.41. A atleta do Benfica queixou-se antes da prova de uma lesão que a tem afectado durante o ano de 2017 e isso acabou por se reflectir na competição da RAEM.

A popular Hoi Long, uma das representantes da casa, foi 11ª.

 

Doroteia Peixoto sem rival na Meia

A par da Maratona, a Meia tem despertado igualmente a atenção de atletas de renome internacional e vai ganhando mais espaço em termos de qualidade e interesse.

Nesta distância também o Quénia dá nas vistas, mas, no sector feminino, têm sido as portuguesas a impor-se nas últimas edições, como é o caso de Doroteia Peixoto, de 34 anos, que repetiu o título alcançado em 2016.

Doroteia, que veste a camisola dos Amigos da Montanha fez 1.16.00, à frente das quenianas Edinah Jeruto Koech (1.16.31) e Margaret Njuguna (1.28.20), amealhando um cheque no valor de 3.500 dólares americanos, perto de 28 mil patacas.

Nos homens, o Quénia encheu o pódio com Josphat Menjo (primeiro, com 1.04.49), Kibiwot Samwel (segundo, 1.04.49) e Joseph Ngare (terceiro, 1.05.20). O português Daniel Pinheiro, vencedor da Meia Maratona em 2014, foi sexto (1.07.28), tempo atribuído também ao quinto, Charles Njoki, do Quénia.

Outros atletas da lusofonia fizeram-se sentir, como o moçambicano Tonderal Afonso, o cabo-verdiano Nelson Cruz, o angolano Simão Manuel e o timorense Roménio de Deus Mais, que ficaram nas 9ª, 11ª, 12ª e 13ª posições, respectivamente.

Na corrida feminina, Sandra Teixeira de Cabo Verde terminou a Meia na sexta posição, melhor do que Adelaide Machado, de Angola, em sétimo, e Nélia Martins, de Timor Leste, em oitavo.

Uma última referência à presença novamente de Rosa Mota, convidada pela organização (fez-se acompanhar do marido e treinador José Pedrosa), que desta feita não correu a Mini Maratona (que ganhou em 20160), em virtude de uma lesão. A simpatia da antiga campeã olímpica da Maratona (Seul 1998) voltou a não passar despercebida, com muita gente a não perder a oportunidade de tirar algumas fotografias com a “menina da Foz”.

Rosa Mota, que recentemente foi distinguida com o prémio Carreira, pela Associação Internacional de Maratonas, 35 anos depois de se ter sagrado campeã europeia em Atenas, numa cerimónia que teve lugar naquela cidade grega, parece querer regressar à competição, agora nas provas de veteranos.

 

* Jornalista