Não se pode chamar-lhe “selecção B” e tanta cara nova não diminuiu a qualidade da equipa portuguesa no amigável com a Arábia Saudita. E Cristiano Ronaldo nem esteve em Viseu

 

Costa Santos Sr.*

 

Começamos pelo fim, pelas palavras proferidas por Fernando Santos momentos depois de terminar o primeiro jogo de preparação com vista ao Mundial da Rússia, em Viseu e com uma vitória clara por 3-0. Disse o seleccionador nacional: “Cada vez tenho mais dúvidas! Hoje vi nos mais novos, e isso é importante, um enorme compromisso com a selecção nacional. Por isso…”

Na verdade, a selecção que Fernando Santos escalou para Viseu, tinha muita gente que, em termos de titularidade, não “calçava”. Vejamos: Anthony Lopes; João Cancelo, Luís Neto, Pepe e Kevin Rodrigues; Danilo Pereira, Manuel Fernandes e João Mário; Bernardo Silva, Gonçalo Guedes e André Silva. Um 4x3x3 que variava num 4x4x2 e até num 4x2x4, já que a selecção da Arábia Saudita, por muito que quisesse, não conseguia chegar à área portuguesa. Esbarrava logo na primeira muralha do meio-campo e aí perdia a bola e o “fôlego” entusiasmante para tentar melhor sorte.

A selecção contou com um meio-campo compacto, eficaz, recuperador de bolas, pressionante, e logo municiador do ataque. Com várias situações de “baliza aberta”, quase daquelas em que o mais difícil era não marcar, como reconheceu Fernando Santos. “Na primeira parte ficámos a dever a nós próprios vários golos. Realmente não estivemos bem na finalização e isso permitiu esbanjar algumas oportunidades claras. Mas, a grande verdade é que criámos os lances, urdimos as jogadas e as oportunidades surgiram. Não as materializámos, pois não. Na segunda parte estivemos melhor. Mantivemos o mesmo estilo e marcámos”.

Com outra particularidade importante: mais gente nova a entrar e a mesma vontade, o mesmo élan, a mesma dinâmica de jogo. Daí Fernando Santos ter dito que “cada vez tem mais dúvidas”. Pela positiva, pela qualidade de gente que tem ao seu dispor e a “ganância” por todos demonstrada em dizer ao seleccionador “estou aqui, quero ir ao Mundial”!

Se este jogo servia para testar e garantir “herdeiros do trono”, eles surgiram, marcaram posição e, para além disso, garantiram qualidade. Desde logo no sector defensivo, do lateral direito ao esquerdo, passando pelo Luís Neto, o parceiro de Pepe. Nos outros sectores, Gonçalo Guedes assinou uma exibição de luxo e Manuel Fernandes, que não jogava na selecção desde Fevereiro de 2012 e não era titular desde 2010, apontou um golo à matador”.

Depois, entraram ainda Ricardo Pereira, Edgar, Gelson Martins, Bruno Fernandes, Ruben Neves e Bruma. Mesmo com estas mexidas e ensaios, o padrão de jogo e o “sentido” único mantiveram-se e os lances de bom futebol, de circulação de bola “prá frente”, com remates e golos, continuaram até ao minuto 90, altura em que João Mário “matou o borrego” que já procurava há muito.

A Arábia Saudita não teve capacidade para se opor, por mérito da selecção de Portugal que, desde muito cedo agarrou os cordelinhos do jogo, desenvolveu o seu futebol, foi rápida no desenhar dos lances e, tal como disse Fernando Santos, apenas “pecou” por não corresponder aos “lances de golo com remates certeiros”.

O público que “disse presente”, tal como pedira o Presidente Marcelo, poderá recordar uma noite brilhante com muitas estrelas de esperança. Fundamentalmente pelo que fizeram no relvado, os “herdeiros do trono” são muitos e todos se recomendam. Como reconheceu o seleccionador nacional: “Esta equipa teve uma grande e correcta atitude. No cômputo geral, foi um jogo conseguido”.

Em Viseu, não se assistiu apenas a bom futebol, foi também uma noite solidária. Segundo as estimativas finais, os números totais dos donativos contabilizados poderão ascender aos 360 mil euros. Uma ajuda preciosa para quem com pouco ou nada ficou, depois do drama das chamas.

Amanhã (04:45 da madrugada em Macau), Portugal realiza novo jogo amigável, desta vez em Leiria, frente aos Estados Unidos.

 

*Jornalista profissional especialista em desporto