Além de investirem verdadeiras fortunas no reforço dos seus plantéis, os clubes chineses também estão a apostar em soluções matemáticas e estatísticas para tentar elevar a qualidade do futebol nacional e, quiçá, forjar uma estrela com dimensão mundial, à imagem de Cristiano Ronaldo ou Messi

 

Com mais de mil milhões de habitantes, um país como a China acabará um dia por gerar uma grande estrela do futebol mundial. Traçado pelo espanhol José Antonio Camacho, quando exerceu o cargo de seleccionador da China entre Agosto de 2011 e Junho de 2013, aquele vaticínio ainda parece estar longe de ser concretizado apesar dos volumosos investimentos em contratações, mas os clubes chineses não desistem facilmente e procuram agora chegar a esse objectivo através de cálculos estatísticos.

Representantes dos principais clubes da China e empresas tecnológicas de análise de dados reuniram-se recentemente em Pequim com o intuito de discutir se a matemática e a informática podem ajudar a melhorar o rendimento dos jogadores do país, que pretende converter-se numa grande potência futebolística em meados deste século. Tendo em conta que na Europa e na América muitos clubes de elite já medem cuidadosamente centenas de variáveis dos futebolistas (incluindo os quilómetros percorridos, pulsações ou poder de aceleração), na China, obcecada por ter grandes jogadores, também já se pondera recorrer a métodos similares.

“Da mesma forma que um treinador, os dados, os números, também são parte do desporto e podem mostrar se um atleta está a jogar bem ou não”, enfatizou à Agência EFE Xian Feng, director da “Sodasoccer”, uma das primeiras empresa a assessorar as equipas chinesas sobre esta nova tendência.

A utilização matemática de dados para construir grandes equipas teve início no beisebol, com o caso de Billy Beane e a sua equipa, Oakland Athletics (que inspirou o filme “Moneyball”), e embora o futebol seja mais complicado para resumir em estatísticas, este conceito também está a ser introduzido no desporto-rei. Algumas equipas chinesas já elaboram algoritmos com as variáveis físicas dos seus jogadores, a exemplo do que fez a selecção alemã que conquistou o Campeonato do Mundo de 2014, facto que diversos analistas consideram ter contribuído para a vitória na competição disputada no Brasil.

Os jogadores da “Mannschaft” foram monitorizados pela SAP, gigante alemã do software, cujo vice-presidente, Jan Schneider, apresentou em Pequim as soluções oferecidas pela sua empresa, que começará a operar na China em 2017. “Os seus resultados são especialmente bons em ligas ainda não tão desenvolvidas, ou de divisões inferiores”, assegurou Schneider.

Segundo a EFE, uma das questões abordadas nas conferências, e que deu título a um dos debates, é se a análise de dados, ligada ao desenvolvimento da formação no futebol que está a ter início na China, pode servir efectivamente para que nasça no país um jogador com a genialidade de Lionel Messi. Para o especialista em informática, Qiang Bai, presidente da companhia “Sport 8”, organizadora da conferência, o “Messi chinês” é possível, mas dependerá também de um valor que não pode ser medido: a sorte.

“Talvez em 20 ou 30 anos… Jorge Mendes, empresário de Cristiano Ronaldo, incentivou-me recentemente, dizendo que num país tão grande têm de existir talentos que ainda não conhecemos”, contou Qiang numa conferência de imprensa.

De qualquer forma, a busca de soluções matemática e estatísticas para combater a falta de qualidade do futebol chinês pode adaptar-se bem a um país onde o governo fixou como uma das suas metas para 2050 ser uma grande potência da modalidade a favorita do Presidente Xi Jinping. Depois da estratégia inicial ter assentado em contratações sonantes, política que ainda se mantém mas que em muitos casos se tem traduzido na chegada de estrelas europeias em decadência e uma liga repleta de partidas manipuladas e casos de corrupção, os clubes também procuram desenvolver hoje outros métodos, como o desenvolvimento das camadas de formação ou a análise de dados.

O Governo Central já estabeleceu que, antes do final desta década, o país deve ter 20 mil escolas de futebol, e 30 milhões de estudantes dos ensinos básico e médio devem praticar a modalidade. Será com essas boas bases, se forem atingidas, que os analistas puxarão das calculadoras para avaliar milhões de dados, na busca pela primeira grande estrela chinesa do futebol mundial.

Para os que temem que a entrada da informática e dos dados no futebol venham a tornar o jogo mais previsível e aborrecido, os próprios analistas asseguram que o factor humano deixará sempre margem para surpresas. “Os dados podem ajudar, mas não bastam para ganhar uma partida. Ninguém poderia prever o golo de Mario Gotze contra a Argentina”, destacou Qiang, lembrando o lance que garantiu à Alemanha o título do último Mundial de Futebol.

 

JTM com agências internacionais