O piloto André Couto está em Zhuhai para realizar testes numa empresa chinesa de carros eléctricos. Depois de seis meses em recuperação, o piloto de Macau deu ontem várias voltas à pista sem se ter ressentido da lesão provocada pelo acidente que sofreu em Julho

 

Vítor Rebelo*

 

André Couto está de volta aos palcos que o lançaram no panorama internacional, ou seja, aos circuitos das corridas de automóveis, ainda que, por enquanto, seja apenas como piloto de testes de uma empresa chinesa, de produção de carros eléctricos.

O regresso ocorre depois de seis meses em recuperação, com muita fisioterapia para ajudar no processo de solidificação da vértebra fracturada no acidente que sofreu em 8 de Julho do ano passado, quando o piloto participava em mais uma ronda dos GT3 do campeonato de carros de turismo da China.

E é precisamente no local do acidente, circuito de Zhuhai, que decorrem estes testes de quatro dias, integrados no Projecto NIO, de uma marca de fabrico de veículos movidos a electricidade, com quem André Couto tem um contrato, estabelecido no ano passado.

O regresso ainda não se regista em competição, “mas estes carros atingem grandes velocidades e eu cheguei a andar a mais de 200 kms/hora”, referiu André Couto ao JORNAL TRIBUNA DE MACAU, no final da primeira sessão de testes, efectuada ontem.

Foi com emoção e alguma apreensão que André Couto se lançou para a pista, depois de tudo o que passou no último meio ano.

“Estava de facto bastante apreensivo, o que é normal, uma vez que durante muito tempo não conduzi e precisava de saber como iria reagir a uma situação que, embora não fosse de corrida propriamente dita, sempre daria para estabelecer o primeiro contacto com um automóvel em pista e já com velocidade considerável. Para recomeçar, estes testes são o ideal para mim”, afirma o piloto da RAEM.

 

Sem qualquer dor

André Couto deu cerca de vinte voltas ao circuito de Zhuhai, a um ritmo não muito elevado, mas que acabou por resultar de uma forma positiva, no que diz respeito à reacção do seu corpo e principalmente da zona afectada depois do acidente.

“Andei muito bem o tempo todo e não senti qualquer dor. Por outro lado, senti que o meu cérebro voltava ao que era dantes, ou seja, que me esqueci de que tinha tido o acidente. Foi muito bom e estou extremamente contente por ter voltado. Foram momentos muito difíceis e por isso teria de lutar para sonhar com o regresso. Não ter sonhos é morrer e o meu sonho era lutar. Esta é a minha motivação, lutar contra o próprio cérebro, porque a realidade é que não tenho tempo a perder. Estou a trabalhar para isso”, sublinhou o piloto de 41 anos – comemorados em Dezembro passado – no final da primeira sessão de testes em Zhuhai.

A importância da presença em Zhuhai vai muito para além do projecto para o qual André Couto foi convidado, que é sempre relevante para o seu currículo, mas acaba por marcar o “dia 1” do regresso do piloto de maior prestígio do território, já com títulos conquistados além fronteiras.

 

Competição para breve

O facto de não ter tido qualquer recaída e de não ter sentido dor, é sinal que André Couto pode estar perto de voltar às provas mais a sério, talvez mais cedo do que se esperaria, dada a gravidade da lesão sofrida, dando assim continuidade ao que vinha fazendo antes daquele dia negro de 8 de Julho de 2017.

Para confirmar a sua presença nos testes de quatro dias do Projecto NIO, ao volante do EP9, André Couto recebeu “luz verde” do seu médico em Hong Kong, que o voltará a ver na próxima terça-feira. Nesse dia, o piloto fará uma ressonância magnética, para avaliar a sua condição física e para saber em que estado de solidificação se encontra a vértebra fracturada no acidente de há seis meses, numa corrida do campeonato de carros de turismo da China.

Para já, é uma boa notícia para a continuidade da carreira de André Couto, que, a partir daqui, vai iniciar os contactos com várias equipas, entre as quais nos GT do Japão, onde foi campeão em 2015 (classe GT300), para reiniciar a sua actividade em competição, podendo, se os patrocínios surgirem, correr no próximo Grande Prémio de Macau, em Novembro.

“Vou começar quase do zero, sendo difícil voltar para já aos GT do Japão e concretamente à minha antiga equipa, pois o meu lugar já foi ocupado”, explicou.

 

Em busca de outras oportunidades

A partir daqui e consumada a minha recuperação, irei iniciar contactos para regressar à competição, tentar outras oportunidades, até mesmo noutras categorias de campeonatos como os que se realizam por toda a China”, refere André Couto, que, no entanto, reconhece que vai ser complicado angariar verba para entrar em qualquer equipa.

“Já não tenho os patrocínios que tinha anteriormente, resultantes da presença anual no Grande Prémio de Macau, porque não corri em Novembro último. Fiquei sem apoio do Governo e assim vai ser bastante complicado, mas vou tentar. Uma porta que se fecha pode resultar noutra que se abre e é nessa perspectiva que vou recomeçar, até para poder voltar a correr no Grande Prémio de Macau”, indicou.

Pelo menos nesta empresa construtora de carros eléctricos André Couto irá permanecer, sendo parte de um projecto idealizado e concretizado por cinco investidores milionários chineses, todos eles ligados à área tecnológica. O veículo agora a ser testado na pista de Zhuhai, integra uma equipa diversificada de engenheiros, cientistas, vindos de vários países, alguns deles com experiência de Fórmula Um”.

“Isto é um projecto a sério de uma construtora de carros eléctricos, que tenciona lançá-los no mercado. Quiseram que eu fizesse parte da equipa de pilotos de teste, onde eu já tinha estado no ano passado. Depois do acidente que tive, disseram-me para voltar quando estivesse bom e por isso aqui estou agora. São quatro dias em que eu informo os responsáveis de tudo o que sinto no carro.  É uma tecnologia ainda a evoluir, mas posso dizer que este veículo é mais rápido do que aquele em que tive o acidente em Julho. Apesar de os tempos não contarem, estes testes são muito importantes para a empresa e para mim serviram para avaliar a minha condição. Tudo está a ser feito num ritmo não muito elevado, que eu posso explorar e nada melhor do que treinar num carro destes para reiniciar a minha carreira”.

Resta agora aguardar pelo veredicto final dos médicos de Hong Kong, no Hospital onde o piloto esteve internado durante um mês, em posição quase estática, relativamente à evolução da recuperação, para que se comece a definir o real regresso à competição e em que campeonatos.

 

* Jornalista