Programa chegou abruptamente ao fim quando Guo começou a descrever intrigas e suspeitas envolvendo líderes chineses
Programa chegou abruptamente ao fim quando Guo começou a descrever intrigas e suspeitas envolvendo líderes chineses

Guo Wengui, bilionário que ameaça tornar pública a corrupção envolvendo a liderança chinesa, viu uma entrevista a uma emissora norte-americana ser interrompida, depois de Pequim ter avançado que foi colocado sob mandado de captura pela Interpol

 

Na quarta-feira, Guo Wengui estava a ser entrevistado pela rádio Voz da América (VOA), financiada pelo Governo dos EUA, quando os apresentadores interromperam o programa, que devia prolongar-se por três horas. Seis horas antes de Guo falar à rádio, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês Lu Kang disse que a Interpol tinha emitido um “alerta vermelho” para a captura do bilionário. A VOA negou qualquer alegada interferência política da China na interrupção do programa.

Lu Kang recusou adiantar quais os crimes de que Guo é acusado, mas o jornal “South China Morning Post” avançou que o magnata é suspeito de ter subornado um responsável dos serviços secretos chineses, condenado por corrupção em Fevereiro passado.

Guo deixou de ser visto em público, em 2014, mas voltou a aparecer recentemente, em duas entrevistas a órgãos de comunicação publicados em chinês além-fronteiras e numa série de mensagens difundidas através do “Twitter”, nas quais dizia ter informações comprometedoras para a liderança chinesa.

Em mensagens enviadas à agência “Associated Press”, Guo disse acreditar que o alerta emitido pela Interpol tinha como objectivo pressioná-lo a desistir da entrevista à rádio VOA. O bilionário recusou responder a questões sobre a ligação ao antigo vice-director dos serviços secretos chineses, mas considerou o alerta da Interpol uma manobra inútil da liderança chinesa.

“É tudo mentira, tudo ameaças (…) Demonstra que eles temem que eu revele informação explosiva”, acrescentou.

Observadores consideraram que a informação divulgada por Guo poderá agitar as disputas internas entre facções do PCC, antes do congresso que se realizará no outono e que promoverá uma nova geração de líderes. O “alerta vermelho” reaviva também preocupações sobre a eleição de um antigo vice-ministro chinês para presidente da Interpol, em Novembro passado.

Guo viverá actualmente no Reino Unido ou nos EUA, dois países sem acordo de extradição com a China.

A ascensão de Guo, desde as origens humildes na província central de Henan até se tornar um bilionário do sector estatal com projectos prestigiados, como o Parque Olímpico em Pequim, tem suscitado histórias escabrosas na imprensa chinesa. Terá alegadamente cooperado com Ma Jian, o antigo quadro dos serviços secretos chineses, para obter um vídeo de um vice-prefeito de Pequim, que travou um projecto imobiliário de Guo, a ter relações sexuais.

A difusão do vídeo levou à queda do vice-prefeito. Guo é suspeito de ter subornado Ma com 8,8 milhões de dólares, segundo o “South China Morning Post”, que cita fontes anónimas.

No início da entrevista com a VOA, na quarta-feira, os responsáveis do programa informaram os ouvintes de que funcionários chineses avisaram os representantes daquela rádio em Pequim sobre dar espaço a Guo para difundir alegações infundadas. O programa chegou abruptamente ao fim quando Guo começou a descrever as intrigas e suspeitas que envolvem os líderes do Partido Comunista Chinês (PCC), incluindo o Presidente, Xi Jinping, e um dos aliados mais próximos. O apresentador disse que o programa tinha de ser interrompido devido a “algumas questões”.

No “Twitter”, Guo escreveu que o Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês está por detrás da interrupção.

Esta semana, o jornal “The New York Times” publicou um artigo, que cita documentos corporativos e entrevistas que parecem confirmar pelo menos alguma informação avançada por Guo sobre negócios envolvendo a elite do PCC.

O Ministério de Segurança Pública chinês recusou comentar o caso.

 

JTM com Lusa