Suspeita foi detectada pela videovigilância à espera de um táxi
Suspeita foi detectada pela videovigilância à espera de um táxi

Entre várias teorias e relatos contraditórios, incluindo da própria polícia de Kuala Lumpur, a morte de Kim Jong-nam continua envolta em mistério e a inquietar a própria Coreia do Norte, que tentou impedir a autópsia. Ontem, as autoridades malaias anunciaram a detenção de uma mulher com passaporte vietnamita que poderá ter participado no ataque ao meio-irmão do líder da Coreia do Norte

 

O regime norte-coreano tentou impedir a autópsia ao corpo do meio-irmão do seu líder, avançou a imprensa da Malásia, citando fontes do governo. Segundo o jornal “New Straits Times”, representantes da Coreia do Norte na Malásia opuseram-se à realização da autópsia, mas as autoridades locais rejeitaram o pedido para que o corpo fosse libertado imediatamente para o país de origem de Kim Jong-nam.

Na base da decisão estão as fortes suspeitas de que o homicídio terá sido ordenado por Pyongyang, sobretudo, atendendo ao facto de Kim Jong-nam ter sido um assumido crítico do governo do irmão.

Por sua vez, a polícia da Malásia anunciou ontem a detenção de uma suspeita de envolvimento no assassinato. A mulher foi presa no aeroporto de Kuala Lumpur e estava com um passaporte vietnamita, no qual constava o nome Doan Thi Huong, com data de nascimento de 31 de Maio de 1988.

Imagens de vídeo vigilância divulgadas pela imprensa malaia mostram uma asiática indicada como uma das suspeitas, com um top branco com as letras LOL, antes de entrar num táxi. A mulher foi “formalmente identificada a partir das câmaras de vigilância do aeroporto e estava sozinha no momento da detenção”, disse o chefe da polícia malaia, Khalid Abu Bakar.

Kim Jong-nam, de 45 anos, morreu na segunda-feira depois de ter sido atacado quando se encontrava numa sala de embarque do aeroporto de Kuala Lampur, à esperava de um voo para Macau, segundo a polícia. No entanto, a notícia só foi divulgada no dia seguinte.

Os contornos do ataque continuam cercados de mistérios. O chefe da polícia criminal do estado de Selangor, Fadzil Ahmat, afirmou ao jornal local “The Star” que Kim alertou uma recepcionista dizendo que “alguém o teria agarrado por trás e borrifado um líquido no seu rosto”. No entanto, em entrevista à agência Bernama, o mesmo responsável mudou a versão dos acontecimentos, ao afirmar que uma mulher agarrou Kim por trás e “cobriu o seu rosto com um pano embebido numa substância”.

Kim Jong-nam ainda procurou ajuda num balcão de informações do Aeroporto

Relatos iniciais indicavam que tinha sido atacado com um “spray” ou com uma agulha envenenada.

Segundo Ahmat, o filho primogénito do ditador norte-coreano Kim Jong-il e da sua primeira concubina, a actriz Song Hye-rim, foi transportado para a clínica do aeroporto, onde “sofreu um ataque cardíaco” e depois levado de ambulância para o hospital “onde foi declarada a sua morte”.

O assassínio, a dias das celebrações na Coreia do Norte do nascimento de Kim Jong-il, foi apresentado pela Coreia do Sul como uma prova da “brutalidade e natureza desumana” do regime de Pyongyang. Na opinião de Cheong Seong-jang, investigador do Instituto Sejong, centro de investigação em Seul, é “impensável” que tal crime possa ter sido cometido sem uma ordem directa de Kim Jong-un.

Segundo deputados sul-coreanos, o meio-irmão de Kim Jong-un terá chegado a implorar ao líder norte-coreano para poupar a sua vida e a da família após uma tentativa de assassínio em 2012. A família – a actual e anterior mulher e os seus três filhos – vive actualmente em Pequim e Macau, segundo Lee Cheol-Woo, membro de uma comissão parlamentar sul-coreana. “Eles estão sob a protecção das autoridades chinesas”, afirmou.

O Governo chinês escusou-se ontem a confirmar se concedeu protecção a Kim ou à família, garantindo apenas que segue “de perto” o caso.

 

O “exílio dourado” em Macau

Macau foi para Kim Jong-nam um “exílio dourado”, onde viveu pelo menos a partir de 2001.

Kim Jong-nam chegou a ser apontado como o sucessor do pai, mas tudo mudou depois de ser apanhado a entrar no Japão, em 2001, com um passaporte falso da República Dominicana. “Ao que parece, essa tentativa de entrada no Japão não foi dada a conhecer a Kim Jong-il, o que o terá feito cair em desgraça. Para grande parte dos observadores, a sua presença em Macau passou a ser uma espécie de exílio dourado”, disse à Lusa o jornalista Ricardo Pinto, que, ao longo dos anos, escreveu e acompanhou a passagem do filho mais velho do “Querido Líder” Kim Jong-il.

Terá sido desde 2001 que Kim Jong-nam passou a viver em Macau de forma permanente, situação que terá mudado após ter sido alvo, anos depois, de uma tentativa de homicídio na cidade, o que terá feito com que passasse a dividir o seu tempo em Pequim; a mulher e os filhos terão, no entanto, permanecido em Macau até irem para a universidade.

Segundo Ricardo Pinto, entendia-se que Kim veio para Macau como “uma espécie de representante do regime numa zona exterior, responsável por alguns negócios que o regime teria a fazer aqui”. No entanto, “pelo que sempre foi noticiado, o seu estilo de vida dava conta que, mais do que um homem de negócios, era um ‘bon vivant’, uma pessoa que estava mais preocupada em viver bem a vida, fazendo aqui uma vida de constante permanência em bons hotéis, bons restaurantes, de jogo”.

“Não parecia que fosse uma pessoa que do ponto de vista humano, político, ideológico, tivesse alguma coisa a ver com a imagem associada ao regime da Coreia do Norte”, indica.

Apesar de, nas poucas ocasiões em que foi entrevistado – interpelado na rua por jornalistas sul-coreanos e japoneses que vinham à sua procura com frequência –, Kim ter frisado o seu desinteresse pela política do seu país, seria visto “por algumas fontes ligadas a estas questões”, incluindo o Governo chinês, como um potencial líder de “mentalidade mais aberta” e reformista. Isso fez com que, segundo Ricardo Pinto, se mantivesse sempre como “um alvo” e o seu homicídio parece confirmar que o Governo norte-coreano quis “eliminar de uma vez por todas a possibilidade de ser utilizado como futuro dirigente do país”.

O jornalista nunca conheceu pessoalmente Kim Jong-nam, mas, num artigo em 2009, descreveu, com o pormenor possível e recorrendo sempre a fontes que pediram anonimato, as rotinas dos dois filhos adolescentes, que frequentavam inclusive os escuteiros lusófonos. Ricardo Pinto aponta para uma situação “surreal”, em que os “netos de Kim Jong-il frequentavam os escuteiros lusófonos, cantavam cânticos alentejanos”.

“Só não estiveram nunca no jardim do consulado português no 10 de Junho a cantar o hino nacional e a olhar para a bandeira a erguer-se no mastro pela simples circunstância de não ser feriado em Macau e a escola internacional que frequentavam ter aulas. Participavam em todas as cerimónias dos escuteiros lusófonos, desde os passeios, idas à missa. Não eram sequer católicos, mas havia essa preocupação de os pôr em contacto com outros miúdos da mesma idade”, resume.

Em 2007, chegou a ser noticiado que Kim Jong-nam tinha passaporte português emitido em Macau, o que foi depois desmentido pelo então cônsul-geral e pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros.

 

RAEM “muito atenta” ao caso

As autoridades de segurança da RAEM “estão muito atentas à evolução da situação” relacionada com a morte de Kim Jong-nam, no entanto, “não irão revelar quaisquer informações nem comentar qualquer caso isolado”, indicou ontem o Gabinete do Secretário da tutela, Wong Sio Chak. Num curto comunicado, o Gabinete salienta apenas que as autoridades locais “estão, como sempre, a agir nos termos legais, protegendo a segurança, os direitos e os interesses legítimos dos residentes de Macau, dos viajantes e de todas as pessoas em geral”.

 

JTM com agências