O Governo português pretende incluir uma rota marítima até Sines na grande iniciativa internacional anunciada pela China

 

Portugal quer ser um “ponto de encontro” na Nova Rota da Seda, projecto internacional de infra-estruturas proposto pela China, através do porto de Sines, disse ontem o Secretário de Estado da Internacionalização. “Propomos que seja incluída uma rota marítima até Sines e que a rota da seda terrestre ferroviária, que já vai de Chongqing até Madrid, vá um pouco mais e chegue a Sines”, afirmou Jorge Costa Oliveira à Lusa, em Pequim.

Divulgada em 2013 pelo Presidente chinês, Xi Jinping, a Nova Rota da Seda (ou “Uma Faixa, Uma Rota”) visa reactivar a antiga via comercial entre a China e a Europa através da Ásia Central, África e sudeste Asiático. Inclui uma malha ferroviária, portos e auto-estradas, abrangendo 65 países e 4,4 mil milhões de pessoas, cerca de 60% da população mundial. Até à data, a ligação ferroviária mais longa vai desde Chongqing, município no centro da China, até Madrid, atravessando o Cazaquistão, Rússia, Bielorrússia e Polónia, e entrando na Europa central através da Alemanha.

Portugal quer incluir no projecto uma rota atlântica, beneficiando do alargamento do canal do Panamá, que permite que as rotas do Extremo Oriente cheguem ao Oceano Atlântico, disse Jorge Costa Oliveira, que participou, em Pequim, num fórum internacional dedicado à iniciativa, onde estiveram 28 chefes de Estado. “Essa rota tem um fundamento económico claro, que se estriba no grande potencial para os supercargueiros pós-Panamax passarem utilizar o canal do Panamá”, explicou, referindo-se aos cargueiros que transportam até 400.000 toneladas de mercadorias.

O secretário de Estado admitiu que, para integrar Sines como o “ponto de encontro” entre as rotas terrestre e atlântica, Portugal precisa de uma linha ferroviária melhor do que a actual e que “potencie o escoamento de mercadorias, na direcção do centro da Europa”. “Esse é o primeiro projecto que está em cima da mesa”, avançou.

No domingo, Xi Jinping anunciou que a China vai contribuir com 100.000 milhões de yuan adicionais para o Fundo da Rota da Seda, que financia projectos de infra-estruturas, e providenciar ajuda, nos próximos três anos, no valor de 60.000 milhões de yuan a países em desenvolvimento e a organizações internacionais que participem na iniciativa. Dois bancos chineses vão também oferecer empréstimos especiais de até 380.000 milhões de yuan para apoiar a Nova Rota da Seda.

A ideia é “complementar a falta de conectividade entre países” e gerar “novas formas” de olhar para o desenvolvimento, explicou à Lusa o analista chinês Gao Zhikai, antigo intérprete de Deng Xiaoping e mestre em Ciências Políticas pela Universidade de Yale.

Nesta lógica de conectividade entre países e continentes, impulsionada pela China, segunda maior economia mundial e principal potência comercial do planeta, Lisboa quer também “integrar o projecto de interconexão das redes eléctricas portuguesa e do norte de África, através de Marrocos”, disse Costa Oliveira. “É importante que incluíssemos isto no projecto da Nova Rota da Seda, que é para poder beneficiar do fundo que, por exemplo, tem juros bonificados”, disse.

 

“Um grande projecto” em perspectiva

Por outro lado, o secretário de Estado rejeitou que a Nova Rota da Seda seja um “Plano Marshall” chinês. “Acho que estamos ainda no início de um grande projecto”, afirmou. Costa Oliveira acredita que “a Nova Rota da Seda vai transformar-se num projecto internacional, em que o empenho dos países que hoje fazem parte do projecto se vai traduzir numa participação a vários níveis, incluindo financeira”.

Críticos acusam Pequim de querer assim reiterar a proeminência da China como poder dominante na Ásia, onde a sua cultura e economia exerceram outrora forte influência sobre os países vizinhos. Jorge Costa Oliveira diz que “é normal que a China, nesta altura, para garantir o sucesso do empreendimento, assuma grandes compromissos”, mas acredita que “sendo do interesse de vários países”, as nações envolvidas terão uma “comparticipação a vários títulos”.

Entre os países cujos presidentes participaram do fórum em Pequim constam a Rússia, Turquia, Cazaquistão, Bielorrússia, Filipinas, Argentina ou Chile. Espanha, Itália, Polónia, Malásia ou Mongólia enviaram os respectivos primeiros-ministros. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, a directora-geral do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, e o presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, também participaram, no entanto, a maioria dos países ocidentais, nomeadamente EUA, Canadá, Reino Unido, Alemanha ou França, não tiveram representantes ao mais alto nível.

Jorge Costa Oliveira rejeita que as potências ocidentais queiram boicotar o projecto, afirmando que as ausências se devem antes ao actual momento nas relações entre a China e os respectivos países. “Tenho a certeza que vários países que não estiveram aqui vão acabar por se empenhar” na iniciativa, “até porque a pressão das empresas e das associações empresariais vai ser grande para não perderem as oportunidades que se vão gerar”, disse.

 

JTM com Lusa