A Índia tem um elevado registo de violações, com cerca de 40 mil casos anuais, mas tal não assusta uma unidade de polícias composta apenas por mulheres. São quase 50 e fazem patrulhas na cidade de Jaipur, um dos lugares com mais casos registados

 

Percorrem de moto as ruas de Jaipur, uma cidade turística no noroeste da Índia, com rádios para comunicarem entre si, câmaras de vídeo e bastões para impor a lei num país onde ocorrem cerca de 40 mil violações por ano. A unidade de mulheres agentes foi criada em Maio e conta já com cerca de meia centena de polícias que vigiam diariamente paragens de autocarro, parques e universidades, considerados os locais onde o risco de violações é mais elevado.

Na Índia, as autoridades são conhecidas por tratar os casos de assédio e agressões sexuais de forma superficial, mas as agentes estão dispostas a alterar a situação. “A mensagem que queremos enviar é que não há nenhuma tolerância com os crimes contra as mulheres”, explica Kamal Shekhawat, responsável pela unidade de agentes.

Especialistas acreditam que os dados avançados sobre os casos de violência sexual no país são apenas a ponta do icebergue, e que a maioria das ocorrências não são denunciadas às autoridades. Para os activistas que tentam combater a violência sexual, os números oficiais acabam por ser um elemento dissuasor para as vítimas relativamente a denunciar as agressões, receando que serão julgadas pela sua aparência, comportamento e, em alguns casos, acusadas de ter provocado as violações.

A vergonha vinculada às agressões sexuais numa sociedade profundamente patriarcal, assim como o medo de represálias, contribuem também para que as mulheres não denunciem os autores desses crimes. As agentes de Jaipur esperam que o carácter exclusivamente feminino da sua unidade permita que algumas vítimas rompam o seu silêncio. “As mulheres na polícia têm mais empatia, as vítimas sentem-se com mais confiança e podem expressar-se com maior liberdade diante elas”, explica Shekhawat.

“Podem ligar-nos ou inclusive enviar uma mensagem por Whatsapp que nós vamos logo. A sua identidade não será revelada, de modo que podem sentir-se livres para apresentar uma denúncia. Se alguém as assediar por telefone ou as incomodar, informem-nos”, acrescentou.

 

Formação intensa

Para cumprir a sua missão, todas as agentes da unidade tiveram três meses de formação especializada e de forma intensiva. “Ensinaram-nos a conduzir uma moto e a fazer movimentos de karaté e de defesa pessoal porque, às vezes, algumas pessoas podem ameaçar-nos fisicamente. A nossa própria segurança é fundamental”, sublinhou Saroj Chodhuary.

O problema da violência sexual no país chamou a atenção mundial com uma violação colectiva de uma estudante de 23 anos, em 2012, em Nova Deli. Após esse caso, a Índia reforçou a sua legislação contra as agressões sexuais e acelerou os processos judiciais para esse tipo de crimes. As autoridades também decidiram contratar mais mulheres na polícia com o objectivo de as tornarem num terço dos funcionários.

Unidades especiais como a de Jaipur “são uma boa decisão”, considera Ram Lal Gujar, um habitante da cidade. “Quando um homem é preso por este grupo de mulheres acaba por assustar os restantes, fazendo com que alterem os seus comportamentos”, assegurou.

 

JTM com agências internacionais