A Chanceler alemã e o novo Presidente francês concordaram em elaborar uma estratégia para promover uma maior integração da União Europeia e abriram portas a mudanças nos tratados do bloco com o intuito de facilitar reformas ambiciosas

 

Um dia depois da sua tomada de posse, Emmanuel Macron viajou para Berlim, onde mostrou um tom consensual com Angela Merkel após um encontro em que foram discutidas formas de revigorar a relação franco-alemã e o próprio projecto europeu, abalado pelo plano de saída do Reino Unido.

“Queremos desenvolver uma estratégia para perspectivas a médio prazo da União Europeia” (UE), disse a Chanceler, numa conferência de imprensa conjunta com Macron. “Existe a convicção comum de que não podemos lidar somente com a saída do Reino Unido, mas em vez disso devemos, acima de tudo, pensar sobre como podemos fortalecer a actual União Europeia e especialmente a zona euro”, acrescentou.

Apesar do Ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schaeuble, ter sugerido que a ideia de Macron de criar um ministro orçamentário e das finanças para a zona euro é irrealista por implicar mudanças de fundo politicamente espinhosas, os dois líderes mostraram abertura a uma eventual alteração dos tratados europeus. “Do ponto de vista alemão, é possível alterar os tratados se isso fizer sentido”, disse Merkel, enquanto Macron assegurou que essa questão deixou de ser “um tabu” para Paris.

O Chefe de Estado francês tentou ainda dissipar preocupações dos conservadores alemães sobre uma possível transformação da zona euro numa “união de transferência”, em que a Alemanha fosse solicitada a financiar outros Estados. Macron, ex-banqueiro de investimentos de 39 anos, asseverou que não apoia a ideia dos chamados “Eurobonds”, como forma de permitir que países da zona do euro emitam dívidas conjuntamente, com alguns a beneficiarem de prémios de riscos mais baixos graças à credibilidade alemã.

Comprometendo-se a apresentar resultados da estratégia conjunta em poucos meses, Merkel e Macron anunciaram a intenção de elaborar, após as eleições parlamentares de Junho, um “roteiro” para o futuro da UE e da zona euro. Segundo a Chanceler, entre os principais temas em cima da mesa estão o estabelecimento de um sistema de asilo comum para a UE e a inclusão nas relações comerciais de uma cláusula de reciprocidade para travar importações que não cumpram determinados padrões.

Atendendo à emergência dos populismos e ao risco de desintegração, “precisamos de uma refundação” do projecto europeu, defendeu Macron, destacando a importância de “recompor a confiança” da relação “histórica” entre Paris e Berlim, estreitar a cooperação à frente da UE e procurar obter “mais resultados” com “mais pragmatismo”.

“Serei um parceiro aberto, directo e construtivo para a Alemanha, porque disso depende o sucesso de Europa”, garantiu o Presidente francês, insistindo que uma boa sintonia é o “requisito prévio” para o progresso dos dois países e de todo o bloco comunitário. O novo chefe de Estado francês sublinhou que a sua obrigação imediata passa por dar resposta ao “entusiasmo” gerado pela vitória eleitoral e provar que “esta Europa funciona”.

Angela Merkel também destacou a “relação especial” entre Berlim e Paris e valorizou diversas propostas de Macron. “Nem sempre estamos de acordo”, admitiu a Chanceler sobre o funcionamento do eixo franco-alemão, frisando por outro lado que a “simbiose” de posições entre os dois países é positiva para “toda a Europa”.

 

JTM com agências internacionais