Centenas de milhares de espanhóis, da Catalunha e outras partes do país, manifestaram-se ontem em Barcelona para expressar a sua oposição à independência da região, uma semana após o referendo de autodeterminação que desencadeou uma crise política sem precedentes em 40 anos

 

Em vésperas do Plenário do Parlamento catalão, do qual poderá sair uma declaração unilateral de independência, cerca de 950 mil pessoas, segundo estimativas da plataforma Societade Civil Catalã (SCC), concentraram-se ontem nas ruas de Barcelona em defesa da unidade da Espanha e contra o movimento separatista. Os manifestantes percorreram o centro da capital catalã com bandeiras da Espanha, Catalunha e União Europeia e gritando palavras como “Viva Espanha e viva Catalunha!”.

A multidão respondeu assim ao apelo daquele colectivo anti-independência, cujo slogan é “Basta! Recuperemos a sensatez”, e que se apresenta como a “maioria silenciosa” que não teve voz desde que as autoridades separatistas organizaram a votação. Os separatistas ameaçam declarar a independência de forma unilateral nos próximos dias, alegando terem recebido o apoio de 90,18% dos eleitores no referendo.

“Nós não queremos a independência. Mantivemos silêncio por muito tempo”, disse à agência AFP Alejandro Marcos, um trabalhador da construção civil de 44 anos de Badalona, nos subúrbios de Barcelona.

Segundo as pesquisas, apesar da maioria dos catalães defender a realização de um referendo formal, pouco mais da metade opõe-se à independência da sua região.

Por enquanto, o impasse é total entre o chefe do Governo conservador espanhol, Mariano Rajoy, e as autoridades separatistas. O líder catalão Carles Puigdemont pediu uma “mediação internacional”, mas Mariano Rajoy recusa dialogar até que os separatistas abandonem a ameaça de ruptura.

“O que eu quero é que a ameaça de declaração de independência seja retirada o mais rápido possível”, porque “nada pode ser construído se a ameaça à unidade nacional não desaparecer”, disse Rajoy ao jornal “El País”.

Ontem de manhã, um grande número de pessoas chegou a Barcelona proveniente de outras partes de Espanha, incluindo Madrid, onde duas manifestações já haviam reunido dezenas de milhares de espanhóis no sábado – uma pela “unidade” da Espanha e outra pelo “diálogo”. O protesto em Barcelona também teve réplicas noutras cidades europeias, como Bruxelas, Paris ou Londres, onde centenas de pessoas se juntaram para apelar à unidade da Espanha.

A concentração em Barcelona contou com o apoio do Partido Conservador de Mariano Rajoy, Partido Socialista catalão e do Ciudadanos, principal força de oposição ao movimento de independência na Catalunha. Mario Vargas Llosa, vencedor do Prémio Nobel de Literatura, de nacionalidade peruana e espanhola, também se associou à iniciativa.

“Uma declaração unilateral [de independência] faria o país em pedaços”, advertiu ao jornal ABC Mariano Gomà, presidente da Societat Civil Catalana, a organização anti-independência que promoveu o evento.

 

Rajoy ameça suspender autonomia catalã

Mariano Rajoy já admitiu poder vir a suspender a autonomia da região, medida nunca aplicada nesta monarquia parlamentar extremamente descentralizada, o que poderia provocar distúrbios na Catalunha. “Não descarto nada”, declarou ao “El País”, a propósito da aplicação do artigo 155 da Constituição que permite essa suspensão.

Rajoy lançou um apelo aos nacionalistas catalães mais moderados para que se afastem dos “radicais” da CUP (Candidatura da Unidade Popular, extrema esquerda) com os quais se aliaram para ter uma maioria no Parlamento catalão.

O repto coincidiu com a partida de várias grandes empresas catalãs, o que também pode semear dúvidas entre alguns nacionalistas conservadores. Cerca de 15 empresas, incluindo o CaixaBank e o Banco de Sabadell, decidiram desde quinta-feira transferir as suas sedes para fora da Catalunha, que representa 19% do PIB espanhol.

Empresas com sede na Catalunha “estão muito preocupadas, terrivelmente preocupadas”, declarou ao jornal conservador ABC Juan Rosell, presidente da CEOE, organização dos principais empregadores espanhóis. “Nunca pensei que chegaríamos a este ponto”, confessou.

O movimento pró-independência tem conquistado terreno na Catalunha desde 2010, alimentado pela crise económica e pelo cancelamento parcial de um estatuto de autonomia que dava à região maiores poderes. Porém, recentemente ganhou uma intensidade sem precedentes pelo facto dos líderes separatistas da Catalunha terem organizado uma consulta que foi proibida pela Justiça, e acabou por ser marcada pela violência policial.

Segundo o Executivo catalão, 2,04 milhões de pessoas votaram “sim” à independência a 1 de Outubro, com participação de 43%, em resultados não verificáveis, na ausência de uma comissão eleitoral neutra.

 

JTM com agências internacionais