Dinastia Kim lidera a Coreia do Norte desde 1948
Dinastia Kim lidera a Coreia do Norte desde 1948

O líder norte-coreano Kim Jong-un tem tão pouco a ganhar com o assassínio do seu meio irmão que a maioria dos especialistas só vê uma razão: neste momento, na Coreia do Norte existe um sistema político muito instável, com a possibilidade de “desmembramento da classe política”, o que assusta a comunidade internacional por não se saber a que mãos poderão ir parar os elementos radioactivos que foram desenvolvidos

 

Na realidade, Kim Jong-un não tem nada a ganhar com a morte do seu meio irmão, apesar da própria “secreta” da Coreia do Sul, reconhecer que Kim Jong-nam foi mesmo alvo de um assassinato político envolvendo vários agentes.

Kim Jong-nam não fazia “sombra” ao actual líder, quer por estar isolado do país há muito tempo, quer por não ter qualquer experiência política ou de governo.

Para os especialistas, tratou-se por isso de um assassinato sem sentido por um regime cada vez mais paranóico, um verdadeiro “acto irracional”. “Kim Jong-nam não era uma figura política e não estava associado a nenhum fugitivo fora do país… e matá-lo não tem nada de protector da ditadura ou de retaliação”.

É verdade que Kim Jong-nam, agora pouco acima dos 40 anos de idade, já foi considerado um sucessor da liderança. Mas caiu em desgraça ainda quando o seu pai era vivo, e embora tenha criticado o regime, os especialistas nunca o consideraram uma ameaça directa ao governo de seu meio-irmão.

“A maioria dos norte-coreanos não sabe sequer da sua existência e de há muito tempo que não mostrava interesse na política do seu país”, assinala James Edward Hoare, perito da política norte-coreana no Chatham House, um “think tank” em Londres, citado pela imprensa britânica.

 

O lado vingativo

Mesmo sem ter nada que ganhar do ponto de vista político, o mundo reconhece que Kim Jong-un tem mostrado um lado vingativo, muitas vezes utilizando soluções tão brutais e impiedosas, que revelam um “outro lado”.

Desde que chegou ao poder em 2011, e embora nalguns casos sem confirmação por fonte independente, o líder mandou executar vários elementos seniores do seu governo – bem como os seus tios e tias. Em Maio de 2015, quadros da secreta sul-coreana disseram que ordenou que o seu ministro da Defesa fosse despedaçado com uma arma antiaérea como castigo por adormecer numa reunião.

Kim Jong-nam tinha uma “ordem de morte” colocada na cabeça, bem como várias tentativas após ter caído em desgraça, de acordo com Kim Byung Kee, um deputado da oposição na Coreia do Sul.

Certamente que foi por esta razão que Kim Jong-nam escreveu uma carta ao seu meio-irmão em Abril de 2013 a pedir perdão por eventuais erros que tenha cometido, de acordo com o deputado, que também é membro da Comissão dos Serviços Secretos do país. “Por favor, cancele a ordem de punição contra mim e a minha família; não temos para onde ir ou para nos escondermos”, dizia a carta, de acordo com Kim Byung Kee, que citava informações do Serviço Nacional de Inteligência do país – conhecido como o NIS – versão sul-coreana da CIA.

 

Com vista para o mar

Estas ameaças levaram Kim Jong-nam a procurar refúgio em Macau, onde, de acordo com a Reuters vivia uma vida pacata, mas sem preocupações de segurança, alegadamente por estar protegido pelo governo chinês.

Nunca nenhum jornalista português conseguiu falar com ele, pelo que o que foi sabendo da sua presença no território é fruto a investigação dos media sul-coreanos e especialmente dos japoneses, que passaram a prestar-lhe muita atenção a partir do momento em que em 2001, foi apanhado a tentar entrar no Japão com um passaporte falso.

Kim Jong-nam chegou a viver num condomínio entre Hac Sá e Cheoc Van

Segundo esses media, chegou a viver num apartamento num condomínio com vista para a água entre as praias de Hac Sá e Cheoc Van, onde vivem várias famílias de boas posses. Um jornalista do JORNAL TRIBUNA DE MACAU que já lá esteve e até assistiu a uma festa de aniversário durante várias horas, salienta que a segurança é escassa e pouco actuante. De dia entra-se com o carro com a maior das facilidades; à noite tem uma cancela, mas com a dificuldade de falar línguas o empregado abre-a com grande facilidade. O condomínio tem uma única estrada paralela à estrada principal que vai para Cheoc Van, e normalmente não se vêem pessoas na estrada. Dá, aliás, a impressão, que algumas das casas, embora estejam ocupadas, não têm residentes permanentes.

Segundo um jornal malaio, citando fontes sul-coreanas e japoneses, após conhecimento do assassinato, vários carros da polícia de Macau rodaram junto do “Ocean Garden”, onde alegadamente a sua família está a viver. A verdade é que a zona é sempre muito visitada pela polícia, pelo que é impossível ter a certeza das razões causa-efeito.

Porém, o refúgio em Macau não terá sido o “exílio dourado” de que se ouve falar, mesmo ainda durante a vida do pai. Caído em desgraça, Pyongyang terá deixado de lhe pagar a vida faustosa que tivera anos antes na Europa, especialmente em Paris onde era bastante conhecido na vida nocturna e nas suites dos hotéis de cinco estrelas.

Em Macau, terá tentado vários negócios, incluindo um restaurante japonês que fechou há mais de um ano e que não está confirmado ter sido sua propriedade. Também tinha amigos em Macau, empresários, alguns dos quais revelaram que levava uma vida simples, jogava pouco e quase sempre bacará, e andava de táxi como tantos outros residentes.

 

No táxi do namorado

Fontes ocidentais, por seu lado, colocam o assassinato a outra luz. Terá sido mesmo o meio irmão a ordenar o assassínio? Um professor da Universidade de Lancashire acha plausível que tenha sido morto por agentes que estavam a tentar mostrar lealdade ao regime, e agiram sem ordens oficiais.

Em benefício desta tese estará o modo bastante “amador” como a operação decorreu sem um plano de fuga, para os agentes responsáveis. E outros pormenores como o facto das alegadas agentes femininas terem saído do aeroporto de táxi (uma delas, no táxi do seu namorado, foi ontem revelado pelas autoridades malaias) e terem voltado “ao local do crime” 24 horas depois para apanhar voos “low-cost”, isto enquanto os agentes masculinos (quatro ou cinco segundo as autoridades) se “esfumaram”.

É uma tese difícil de sustentar, quando se fala de um regime em que o líder controla tudo. O mais provável é que os erros cometidos na operação, tenham que ver com o isolamento do regime norte coreano em que mesmo os operacionais da secreta desconhecem a realidade fora das suas fronteiras. Ou, como dizem vários deputados sul-coreanos este acto não foi mais que a demonstração de paranóia dum pária cada vez mais isolado.

Num ou noutro caso o Mundo tem razões para se preocupar. No caso de os agentes terem cometido o crime sem ordens do líder, ou no caso dele demonstrar a paranóia do regime, a verdade é evidente o sinal de instabilidade num regime que está perto de construir um míssil nuclear, pois todas as agências internacionais relatam que Pyongyang já tem quantidade significativa de elementos radioactivos necessários para fazer uma bomba.

 

 

Altifalantes sul-coreanos

levam notícia ao Norte

A Coreia do Sul vai recorrer aos altifalantes instalados na fronteira com a Coreia do Norte para “oferecer a informação necessária ao povo e aos soldados norte-coreanos”, anunciou o porta-voz do comando conjunto das forças sul-coreanas. Os altifalantes vão começar a emitir a informação “uma vez recebida a confirmação oficial” sobre o crime, acrescentou Noh Jae-chon. A Malásia confirmou ontem que o homem que morreu na segunda-feira em Kuala Lumpur era de facto Kim Jong-nam. As autoridades malaias já detiveram duas mulheres e um homem por suspeitas de envolvimento no assassínio. Uma suspeita tem nacionalidade indonésia e a outra estava na posse de um passaporte vietnamita. O suspeito, segundo as autoridades, é namorado de uma das duas detidas.

 

J.R.D. com agências internacionais