O Estado Islâmico perdeu uma quantidade enorme de território tanto no Iraque como na Síria e muitos dos seus líderes estão mortos. Mas mesmo enquanto o grupo parece estar a desfazer-se, os ataques são realizados em seu nome na Europa. O que virá a seguir para o EI?

 

Poucas pessoas no Ocidente estão familiarizadas com a cidade que o Primeiro-Ministro do Iraque, Haider al-Abadi, ordenou que fosse invadida há umas semanas. “Ou se rende ou morre”, disse num discurso pela televisão, vestido de farda preta das notórias unidades anti-terror. A cidade chama-se Tal Afar, localizada a oeste da recém-libertada cidade de Mossul e um dos últimos redutos do Estado Islâmico (EI) no Iraque.

Tal Afar é basicamente uma das duas cidades natais do EI, tendo produzido vários membros da liderança da organização terrorista. Mesmo sob Saddam Hussein, a cidade era uma espécie de laboratório de ódio. A maioria turcomana dali desconfiava da minoria árabe, mas a comunidade turcomana incluía tanto sunitas quanto xiitas, permitindo a Saddam jogá-los uns contra os outros. Os sunitas, por exemplo, eram autorizados a ter uma carreira nos serviços secretos e enriquecerem às custas de seus vizinhos.

Quando o EI conquistou Tal Afar em Junho de 2014, o grupo assassinou ou expulsou todos os xiitas. Em resposta, as notórias milícias xiitas insistem que foram autorizadas a lutar nas linhas de frente durante a batalha pela libertação da cidade, onde cerca de 10 mil dos antes 200 mil habitantes ainda estavam impossibilitados de sair.

A guerra, por outras palavras, também é uma batalha por vingança. E Tal Afar foi um dos últimos rounds.

O “califado” do Estado Islâmico, que Abu Bakr al-Baghdadi proclamou em Julho de 2014 e que se estendeu de al-Bab, no norte da Síria, até Tikrit, no Iraque, agora já só faz parte da história. A área sob controlo do grupo terrorista encolheu dramaticamente. O EI perdeu Mossul no Iraque. Foi expulso de Sirte, na Líbia, e perdeu o controlo sobre quase todos os poços de petróleo. Em breve, o grupo também será forçado a entregar Raqqa, na Síria.

Entre 80% e 90% dos líderes do grupo estão mortos, neutralizados nos últimos três anos principalmente por drones e mísseis americanos. Entre os mortos estão cinco dos mais importantes comandantes do EI que, a partir de 2012, planearam e executaram a conquista do norte da Síria. Hoje, o grupo não conta mais com uma cadeia de comando militar centralizada; cada unidade está a combater por conta própria. Ordens não assinadas são anotadas em folhas de papel e entregues via mensageiro.

 

Ataques na Europa só têm a ideologia

Enquanto isso, na Europa, mais ataques terroristas do que nunca estão a ser cometidos em nome do Estado Islâmico e da sua ideologia. Apenas neste ano, ocorreram ataques em Londres, Manchester, Paris, Estocolmo, São Petersburgo e Istambul. E isto foi antes de 15 pessoas terem sido mortas e quase 100 feridas nos ataques de Agosto em Barcelona e Cabrils. O EI reivindicou a responsabilidade poucas horas após a violência.

Por mais perturbador que seja cada ataque individual, há dúvidas sobre a a real ligação do EI a estes ataques. Por exemplo, os agressores em Barcelona eram tão pouco sofisticados que nem mesmo foram capazes de usar garrafas com gasolina como bombas.

Dito por outras palavras, não há qualquer comparação com a capacidade do Estado Islâmico de 2013 de importar centenas de toneladas de explosivos de várias partes do mundo para a Síria pela fronteira turca.

Além disso, as autoridades europeias não conseguiram estabelecer uma ligação concreta entre os perpetradores na Espanha e a liderança do EI na Síria e Iraque, e as próprias reivindicações do EI não incluem qualquer prova de ligação. O grupo há muito colocou em movimento uma onda de terror e o Estado Islâmico não precisa para a manter em acção.

Na verdade não é necessária: o efeito pretendido dos ataques é consistente com a missão do EI – incitar o ódio e ressentimento contra os muçulmanos no Ocidente como forma de entrar pelas sociedades europeias, atraindo os muçulmanos na Europa para os braços do grupo terrorista.

Até ao momento, os europeus provaram ser incrivelmente resilientes ao terror, mesmo que o final ainda não esteja em vista. Afinal, ninguém conseguiu ainda encontrar uma forma de parar esta onda de ataques, dado que a única coisa que os terroristas precisam para atacar o Ocidente é algum tipo de veículo, uma arma ou uma faca.

Pensando bem, dizem os especialistas, o aumento dos ataques na Europa não é surpreendente. À medida que o EI perde território, menos tem a perder, e por isso pode lançar  ou reivindicar ataques terroristas à vontade.

 

EI era mais experiente quando se expandiu

Isso significa, então, que o Estado Islâmico está diante de seu fim?

É preciso ter cuidado com esta ideia porque anteriormente o Estado Islâmico já pareceu próximo do fim. Há sete anos, as forças armadas americanas juntamente com as forças de segurança iraquianas quase destruíram completamente a liderança da organização.

Recorde-se que em Junho de 2010, generais americanos anunciaram que o grupo, que na época ainda se chamava Estado Islâmico do Iraque, tinha sido devastado. Afinal, os americanos apenas aceleraram uma mudança de geração entre a liderança do grupo, abrindo o caminho para a organização se transformar no monstro que começou a aterrorizar o mundo em 2014.

Os serviços secretos ocidentais relembram que os novos líderes do grupo já faziam parte da cadeia de comando do EI há algum tempo e eram experientes e talvez até mais competentes que a maioria dos que foram mortos. Até então, a sua ascensão estava a ser bloqueada pelos antigos que eram oficiais das forças armadas e dos serviços secretos de Saddam Hussein. Eram peritos em liderança militar, estruturação de órgãos de inteligência e planeamento estratégico. Resumindo, eram o tipo de pessoas que sabiam como construir um Estado.

O avanço rápido da milícia terrorista em 2014, cujo extenso planeamento foi realizado em segredo, foi obra deles. A fachada ideológica do Estado Islâmico pode ser semelhante à da Al Qaeda, mas os dois grupos são fundamentalmente diferentes.

O núcleo da estratégia bem-sucedida do EI no Iraque, Síria e Líbia foi a infiltração, através de ataques relâmpago e, depois, a manutenção de um controlo rígido sobre o território conquistado por meio da terrorização da população. A propaganda islamita era apenas o meio escolhido para legitimar as incursões e atrair combatentes voluntários de várias partes do mundo.

A estratégia teria funcionado se o EI tivesse conseguido manter os ganhos territoriais conseguidos inicialmente. Mas o que pode acontecer após o mais recente colapso do grupo?

As previsões pelos especialistas citados pelos media ocidentais variam entre as proclamações prematuras de vitória por parte do primeiro-ministro iraquiano até suposições de que o EI continuará a actuar como grupo terrorista e focará sua violência em ataques no Ocidente. Há até mesmo uma teoria de que o grupo aceitou conscientemente a derrota em Mossul como forma de recrutar novos seguidores.

Mesmo se o EI perder o controlo das suas maiores cidades, que funcionavam como símbolos da força do grupo, ainda continua a controlar um território significativo. No momento está a lutar em 11 frentes diferentes e não se está a retirar de nenhuma delas sem dar luta.

 

Questões geoestratégicas

Na Síria ainda detém o fértil e densamente povoado vale do Eufrates, entre a cidade de Deir al-Zor e a fronteira iraquiana, uma área para a qual acredita-se que muitos líderes do EI se tenham retirado.

O vale estreito pareceria mais fácil de ser conquistado que as cidades, mas está localizado longe onde as milícias curdas estão a actuar, além de que a topografia é vantajosa para o EI: ambos os lados são flanqueados por terreno íngreme e deserto, facilitando o recuo rápido do grupo terrorista.

Talvez mais importante, seja o facto de que o combate ao Estado Islâmico está longe do topo da agenda do presidente sírio Bashar al-Assad e os seus aliados russos e iranianos, apesar de todas as suas alegações do contrário. Os jihadistas têm sido benéficos demais para Assad, ao permitir que ele surja aos olhos do mundo como o menor dos males.

Também no Iraque, o exército terrorista continua a manter um vasto território além da agora sitiada Tal Afar: o distrito de Hawija, uma região de mais de 40 quilómetros quadrados de terras férteis, localizada a sudoeste de Kirkuk e lar de várias cidades, cerca de 100 vilarejos e dezenas de milhares de moradores.

Hawija foi um dos primeiros redutos do Estado Islâmico no Iraque e provavelmente será o último a cair. O distrito é um microcosmo que revela tanto a decadência da organização terrorista quanto sua resiliência. Fontes na região citadas por media alemães há meses que fornecem informações, incluindo relatos da erosão da disciplina entre os combatentes e a liderança, além de enormes disputas entre facções concorrentes.

A polícia da moralidade, Hisbah, que patrulha os territórios controlados pelo EI e o serviço secreto do grupo, Amniyat, têm como principal tarefa impedir os civis de fugirem da região. Afinal, sem um escudo humano seria mais difícil defendê-la. Os combatentes do EI nas linhas da frente e nos postos de observação, por sua vez, ganham somas de dinheiro significativas para permitir que os civis passem ou para contrabandeá-los pessoalmente pelos campos minados.

“Éramos 200 no nosso grupo”, contou uma pessoa que fugiu da área controlada pelo EI. “O homem do EI que nos tirou de lá abraçou os guardas no posto de controlo mostrando que se conheciam”. Nas cidades e vilarejos, dizem testemunhas, são alguns dos membros do EI a organizarem operações de contrabando enquanto comandos do EI prendem pessoas desde que haja a menor suspeita de que se preparam para fugir.

Apesar disso, o Estado Islâmico continua a controlar firmemente Hawija. Quando o chefe de segurança da cidade de Abbasi foi assassinado no final de Junho, combatentes do EI fizeram centenas de presos e mataram sete dos seus próprios homens, incluindo dois comandantes da cidade.

O fim do controlo do EI em Hawija ainda parece distante, mas mesmo aqui, o fim do grupo não parece estar muito longe no futuro. Cidades e vilarejos serão destruídos e mulheres e crianças provavelmente serão enviadas como homens-bomba às linhas de frente iraquianas, enquanto as tropas iraquianas provavelmente matarão os prisioneiros. O EI deixa para trás uma terra arrasada; se ele cair, tudo mais deve cair junto. É um gosto do apocalipse, consistente com as alegações feitas pela propaganda do EI.

Mas isso não significa que todo o EI esteja interessado em morrer. O Estado Islâmico é composto de grupos diversos: além dos devotos e “mártires”, que preferem morrer lutando do que se entregar, há sempre os oportunistas, que sempre estiveram mais interessados em dinheiro e poder.

Enquanto o EI vencia no campo de batalha, essas divisões permaneciam em grande parte invisíveis. Agora, no meio de uma crescente pressão, a situação está a mudar. Em Mossul no ano passado, tornou-se claro que muitos combatentes do EI estavam a deixar a cidade enquanto outros estavam a chegar, sabedores de que não escapariam com vida.

O EI poderia ter entregue Mossul, salvando tanto a cidade quanto as vidas de milhares de seus próprios combatentes. Mas não o fez, e em vez disso aceitou a derrota militar visando incitar ainda mais o ódio entre sunitas e xiitas. Ao fazê-lo transformou os sunitas em alvos de ataques por vingança e os colocou a todos sob suspeita geral de serem terroristas.

Agora, as mesmas milícias xiitas que libertaram Mossul estão a destruir sistematicamente cidades sunitas como Diyala, Babel e Tuz Khurmatu. Estão a recrutar à força os jovens, que nunca mais são vistos, e a expulsar as famílias e desmontar as fábricas. Até mesmo os que fugiram do Estado Islâmico não estão a encontrar protecção com os inimigos do grupo. Muitas das centenas de milhares de pessoas deslocadas são impedidas de viajar para Bagdad ou para o sul do Iraque.

 

Uma questão de tempo

Então, o que virá a seguir?

Enquanto o grupo contar com jihadistas suficientes dispostos a lutar até a morte e um número suficiente de crianças-soldado sequestradas, provavelmente continuará a destruir vilarejo atrás de vilarejo.

Mas o EI há muito que evacuou parte de sua liderança, de seus combatentes de elite e das suas imensas reservas de ouro, grande parte delas saqueadas de Mossul em 2014. Fê-lo para poder continuar lutando onde sempre teve mais mobilidade: de forma clandestina. Dessa forma ele pode reorganizar-se, ganhar tempo e então surgir com um nome diferente e, talvez, com um novo perfil.

O gatilho decisivo para o EI ter passado a operar de forma aberta em 2013 foi a perspectiva de estabelecimento de seu próprio Estado. A marca Estado Islâmico está esgotada, mas ainda é útil para fins de propaganda.

Além disso, as condições no Médio Oriente (a profunda desconfiança entre xiitas e sunitas, as guerras e a falta de controlo do Estado) são perfeitas para a ascensão de um novo grupo de combatentes sunitas. A partir de 2010, a liderança do EI capacidade para tirar proveito dessas condições e criar uma poderosa organização terrorista.

Hoje, essa liderança já não existe, mas fica por se saber se ainda terá um número suficiente de comandantes e planeadores competentes, para manter o EI unido na clandestinidade?

Se sim, então um agente dos serviços secretos europeus, especializado na ascensão do Estado Islâmico muito antes de 2014, pode estar certo. “Eles sempre tiveram um Plano B, um Plano C e um Plano D”, salientou. “Não há motivo para não acreditar que nos surpreenderão de novo”.

 

Há 11 mil passaportes sírios nas mãos do Estado Islâmico

As autoridades alemãs calculam que o grupo Estado Islâmico (EI) possui mais de 11.100 passaportes sírios em branco, que podem ser completados com dados pessoais, revelou a revista “Bild am Sonntag”. Os investigadores estabeleceram uma lista de números de série dos passaportes em branco e das autoridades que emitiram os documentos, informa a publicação, que cita documentos confidenciais da polícia federal e do ministério do Interior. Os passaportes roubados são documentos autênticos em branco, sem nenhum dado pessoal, o que é muito útil para os falsificadores. No total, os serviços de segurança da Alemanha consideram que 18.002 passaportes sírios em branco foram roubados de escritórios do governo sírio, e milhares deles estarão nas mãos de outros grupos terroristas, para além do EI. “A evolução da situação dos refugiados mostra que as organizações terroristas aproveitam a oportunidade para infiltrar possíveis agressores ou simpatizantes na Europa e na Alemanha sem que sejam detectados”, afirmou uma porta-voz da Polícia Federal Criminal (BKA) ao “Bild am Sonntag”. Os integrantes da célula jihadista que cometeu os atentados de Paris – 130 mortos em novembro de 2015 – tinham falsos passaportes sírios. No entanto, “os passaportes falsificados ou modificados também são utilizados para entrar ilegalmente (na Europa), sem motivos posteriores para realizar ataques terroristas”, afirmou a porta-voz, explicando a dificuldade de detectar os que já entram na Europa para praticar actos terroristas. De acordo com os documentos consultados pela “Bild am Sonntag”, 8.625 passaportes controlados pelas autoridades de imigração alemãs em 2016 eram falsos.

 

JTM com agências internacionais