A China planeia aplicar medidas punitivas a empresas americanas com interesses no país se Donald Trump der passos rumo a uma guerra comercial

 

As autoridades chinesas estão preparadas para apertar o cerco às companhias norte-americanas, caso o presidente eleito Donald Trump tome medidas punitivas contra produtos da China e desencadeie uma guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo quando assumir o cargo, adiantou a agência Bloomberg, citado fontes conhecedoras do processo.

Caso se concretize uma das opções em cima da mesa, as empresas americanas mais conhecidas ou com grandes operações na China ficarão sujeitas a investigações tributárias ou “anti-trust”. Segundo as mesmas fontes, também poderão ser aplicadas medidas como o início de investigações “anti-dumping” e a redução das compras de produtos americanos por parte do Governo de Pequim.

Este quadro desenha-se numa altura em que a China tem sido frequentemente alvo dos ataques de Donald Trump. Para o jornal “Global Times”, do Partido Comunista Chinês, os titulares de alguns cargos comerciais nomeados pelo presidente eleito poderão formar mesmo uma “cortina de ferro” de proteccionismo.

No mês passado, o vice-ministro chinês das Finanças Zhu Guangyao, já tinha advertido que Pequim estava a preparar-se para uma eventual guerra comercial com os EUA, embora queira evitar esse cenário, por entender que acabaria por prejudicar as duas partes. “Esperamos que não aconteça”, disse Zhu Guangyao, ao intervir num fórum económico em Pequim.

O governante chinês salientou também que, em caso de guerra comercial, a China teria de recorrer aos canais de comunicação bilaterais, como a organismos como a Organização Mundial do Comércio (OMC). Pequim já pediu à OMC que inicie consultas com a União Europeia e os EUA sobre os seus métodos para impor taxas “anti-dumping” contra produtos chineses.

O aumento das tensões entre os dois países deverá afectar o sector privado e qualquer retaliação chinesa contra Trump implicaria riscos. A China poderia desde logo prejudicar o acesso ao seu maior parceiro comercial, disse Michael Every, responsável por pesquisa de mercados financeiros na “Rabobank Group”, em Hong Kong.

“Quando um país com um grande défice comercial retalia contra um que tem grande superavit com o mesmo, é o país com o défice comercial que vence”, explicou Every à Bloomberg.

O défice comercial dos EUA com a China recuou para 31,1 mil milhões de dólares americanos, após ter atingido 32,5 mil milhões em Outubro. Segundo os dados mais recentes, as exportações americanas para a China estão no maior patamar desde Dezembro de 2013 e, entre Janeiro e Outubro de 2015, o défice comercial totalizou 288,78 mil milhões.

 

Muito em jogo

O Governo Central da China planeou as eventuais respostas após reunir opiniões de diversos departamentos, disseram as mesmas fontes, ressalvando que as medidas punitivas apenas serão implementadas se os EUA agirem primeiro.

No final do ano passado, a China multou a “General Motors” (GM), segunda maior fabricante estrangeira de automóveis no país, em quase 30 milhões de dólares por infracções “anti-trust”. A empresa foi acusada de definir preços mínimos para alguns modelos fabricados pela “joint venture” SAIC General Motors. Na altura, a GM declarou que respeita a legislação local e prometeu apoio total ao seu empreendimento na China para garantir que todas as medidas adequadas fossem tomadas.

Nesta delicada relação entre os dois países há muito em jogo. A “Rhodium Group” estima que companhias multinacionais investiram mais de 228 mil milhões de dólares na China desde 1990.

Por outro lado, tradicionalmente, os grupos empresariais dos EUA enfrentam Washington quando se trata de questões comerciais com a China. Na década de 1990, empresas como a “Boeing”, “Motorola” e “American International Group” (AIG) fizeram “lobby” na “batalha” anual para renovar o estatuto de favorecimento da China, que permitiria a entrada de exportações chinesas com tarifas baixas. Em 2011, associações representantes de gigantes como a “Microsoft” e “Wal-Mart Stores” também fizeram “lobby” contra leis que pressionariam a China a valorizar a sua moeda.

 

JTM com agências internacionais