Com o arranque de 2018, a China iniciou um ciclo que os seus próprios líderes antevêem de três anos de “batalhas críticas” no domínio da economia. A instabilidade financeira é vista como o problema central

 

A necessidade de combater a dívida doméstica, a pobreza e a poluição representa uma trindade de riscos para a segunda maior economia do mundo, sem esquecer o aumento das taxas de juros e as ameaças de guerra comercial dos EUA.

A base de partida da China é forte, embora o crescimento de 2017 deva assinalar a primeira aceleração desde 2010 e seja esperada uma expansão mais lenta em 2018. O Governo Central assumiu uma postura optimista sobre um desempenho económico mais modesto, desde que seja possível progredir no capítulo que oferece risco mais elevado – a fragilidade financeira.

“Os riscos para a economia chinesa permanecerão entre os principais para as perspectivas de crescimento mundial em 2018, e a região Ásia-Pacífico é particularmente vulnerável às repercussões de uma desaceleração”, disse à Bloomberg Rajiv Biswas, economista-chefe da Ásia-Pacífico da IHS Markit em Singapura.

Em geral, os analistas esperam que a expansão económica desacelere para 6,5% este ano – o ritmo mais lento desde 1990.

Recentemente, o Partido Comunista renovou a promessa de prevenir e controlar o risco financeiro, reconhecendo que este é um desafio decisivo para os próximos três anos. À medida que o sistema financeiro se abre mais às empresas estrangeiras, o principal perigo é o coeficiente dívida/PIB, que caminha para mais de 320% até 2022.

“Até mesmo a sua própria máquina de propaganda admite que este é um problema tão grave que Pequim não espera nenhuma solução em menos de três anos”, disse Pauline Loong, directora administrativa da empresa de pesquisa Asia-Analytica em Hong Kong, apontando a “instabilidade financeira” como o “problema central” que importa resolver.

O endurecimento dos regulamentos financeiros e ambientais para ajudar a reduzir a dívida poderá abalar o mercado em 2018, retardando a construção de habitações e infra-estruturas, de acordo com Frederic Neumann, co-diretor da pesquisa sobre a economia asiática do HSBC Holdings em Hong Kong. “Uma desaceleração mais acentuada que o esperado na construção poderia pesar sobre a actividade geral”, alerta Neumann, convicto de que “a maior fissura na economia chinesa é o sector de construção”.

 

Riso de guerra comercial

De Washington também surgem sinais de risco para a economia chinesa. O recente discurso sobre estratégia de segurança nacional do Presidente dos EUA, Donald Trump, foi um “preparativo” para um regresso ao proteccionismo, disse David Loevinger, ex-especialista sobre a China no Departamento do Tesouro dos EUA.

“No cardápio para 2018: muita carne vermelha para a base, e isso significa derrubar as importações”, antecipou Loevinger, actualmente analista da TCW Group. “Como a China também não resiste ao populismo nacionalista, os políticos chineses sentir-se-ão obrigados a retaliar”.

Por outro lado, se a Reserva Federal dos EUA (FED) aumentar as taxas de juros acima do esperado e os cortes de impostos dependerem do crescimento subjacente de 3,2%, o dólar poderá pressionar novamente o yuan e as saídas de capital, refere George Magnus, do Centro sobre a China da Universidade de Oxford.

Zhu Ning, vice-director do Instituto Nacional de Pesquisa Financeira da Universidade de Tsinghua, em Pequim, acrescenta outro dado: se a tensão entre os EUA e a Coreia do Norte evoluir para um confronto mais significativo, haverá consequências profundas e de longo alcance para toda a região Ásia-Pacífico.

 

JTM com agências internacionais