No primeiro encontro oficial entre em mais de dois anos, a Coreia do Norte e a do Sul concordaram ontem em negociar para resolver problemas e evitar conflitos acidentais, apesar de Pyongyang ter colocado de lado discussões sobre o programa nuclear. Atletas dos dois países poderão desfilar juntos na abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno

 

As duas Coreias, que tecnicamente estão em guerra há mais de 65 anos, mantiveram ontem a sua primeira reunião de alto nível em mais de dois anos em Panmunjom, aldeia fronteiriça onde foi assinado o armistício da Guerra da Coreia (1950-53), e apesar do dossier nuclear não ter sido abordado mostraram sintonia nalguns pontos sensíveis.

Num comunicado conjunto divulgado após 11 horas de conversas, a Coreia do Norte prometeu enviar em Fevereiro uma grande delegação aos Jogos Olímpicos de Inverno, que decorrerão em Peyongchang, na Coreia do Sul, mas deixou uma “forte reclamação” após Seul propor conversas para desnuclearizar a península coreana. Seul pediu a Pyongyang para cessar actos hostis susceptíveis de causar “confrontos acidentais” e em troca o Norte concordou que a paz deve ser garantida na região, informou o Ministério da Unificação da Coreia do Sul, num comunicado em separado.

Sublinhando que o seu arsenal é voltado apenas para os EUA, e não para os “irmãos” sul-coreanos, a China ou a Rússia, a Coreia do Norte considerou que eventuais discussões sobre o programa nuclear teriam um impacto negativo nas relações inter-coreanas.

De qualquer modo, a atmosfera do encontro pareceu bem mais desanuviada do que é habitual, com as duas Coreias a acordarem iniciar conversações para reduzir a tensão militar na região e “cooperar activamente” relativamente às Olimpíadas. A imprensa sul-coreana avançou mesmo que a Coreia do Norte vai restabelecer hoje uma linha telefónica militar de emergência com o Sul, o que representa o segundo canal de comunicação reaberto entre os dois países no espaço de uma semana.

Noutro registo positivo, o Governo sul-coreano disse estar preparado para suspender algumas sanções temporariamente para que autoridades norte-coreanas possam visitar o Sul para os Jogos Olímpicos de Inverno. A Coreia do Norte informou que a sua delegação contará com atletas, autoridades de alto nível, adeptos, uma claque e artistas, bem como repórteres e espectadores.

O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Coreia do Sul, Roh Kyu-deok, indicou que Seul irá ponderar tomar “medidas prévias”, juntamente com o Conselho de Segurança da ONU e outros países relevantes, para ajudar norte-coreanos a visitarem o país durante as Olimpíadas.

Pyongyang também respondeu “positivamente” à proposta da Coreia do Sul para que atletas de ambos os lados marchem juntos na cerimónia de abertura dos Jogos e noutras actividades conjuntas durante o evento, segundo Seul. Atletas do Norte e Sul ambos os lados não desfilam juntos em eventos desportivos internacionais desde os Jogos Asiáticos de Inverno de 2007, na China, após as relações terem esfriado durante quase uma década de governo conservador na Coreia do Sul.

No encontro desta terça-feira, Seul também propôs discussões sobre uma reunião de familiares separados pela Guerra, mas o comunicado conjunto não fez menção a essa questão.

A delegação norte-coreana cruzou a pé linha de demarcação militar para ir à Casa da Paz, o lugar de encontro do lado sul-coreano, a poucos metros de onde um soldado desertou há dois meses, sob uma chuva de balas. O ministro sul-coreano da Unificação, Cho Myoung-Gyon, e o chefe da delegação norte-coreana Ri Son-Gwon apertaram as mãos antes de entrar no edifício.

“Vamos dar às pessoas um precioso presente de Ano Novo”, lançou o norte-coreano. “Dizem que uma viagem a dois dura mais do que uma viagem solitária”.

“O povo está ansioso para ver o Norte e o Sul avançarem em direcção à paz e reconciliação”, respondeu o sul-coreano.

Na sua alocução inicial, cujo texto foi facultado pelo Ministério da Unificação, Ri Son-gwon observou que as relações entre as duas Coreias se encontram “mais frias do que o tempo que se faz sentir por estes dias”, mas vincou que “apesar do frio, o desejo do povo [de as melhorar] permanece intacto”.

No arranque da reunião bilateral, a Coreia do Norte afirmou que perante “a grande atenção nacional e internacional” dada ao evento seria adequado que fosse gravado e transmitido na íntegra pela televisão. A proposta foi, no entanto, rejeitada pela Coreia do Sul, com Cho Myoung-gyon a argumentar ser melhor realizar a reunião em privado e “falar com os meios de comunicação social quando necessário”, tendo em conta que “as conversações estiveram estancadas durante um período de tempo muito prolongado” e “há muito por dizer”.

 

China espera “reconciliação” entre as Coreias

A China disse estar confiante que as conversações de alto nível entre as duas Coreias venham a permitir a reconciliação e ajudar a melhorar as relações entre Pyongyang e Seul.

“Esperamos que estas conversações sejam um bom começo para melhorar as relações entre as duas Coreias e promover a reconciliação e cooperação”, afirmou o porta-voz da diplomacia chinesa, Lu Kang, em conferência de imprensa, pouco depois do início do encontro em Panmunjom.

“Estamos contentes de ver que se mantêm estas conversações de alto nível entre ambas as partes”, destacou o porta-voz chinês, pedindo ainda à comunidade internacional que proporcione mais apoio e compreensão, face aos esforços realizados por Pyongyang e Seul, visando reduzir a tensão regional.

A reunião entre as duas Coreias ocorre depois de Kim ter agradecido, nos seus votos de ano novo, a predisposição demonstrada pelo Presidente sul-coreano, Moon Jae-in, para o diálogo, e ter expressado o desejo de enviar uma delegação aos Jogos de PyeongChang.

 

JTM com agências internacionais