“Lotaria de animais” tornou-se um fenómeno
“Lotaria de animais” tornou-se um fenómeno

Desesperados com a crise económica sem precedentes no país, cada vez mais venezuelanos estão a voltar-se para diversos tipos de lotarias e apostas. A “lotaria de animais” tornou-se mesmo num fenómeno de popularidade

 

Numa altura em que a grave crise económica não dá sinais de tréguas, têm vindo a crescer as actividades relacionadas com o jogo na Venezuela. Nos bairros mais pobres de Caracas, é frequente ver filas de jogadores junto a quiosques à espera de escolherem animais num jogo de lotaria que se converteu em verdadeira “febre” num país que, apesar de ser rico em petróleo, atravessa há quatro anos uma recessão brutal.

Embora em geral, sejam mais as pessoas que perdem do que as ganham, a ilusão de ficar rico num dia tornou-se mais atractiva, uma vez que os venezuelanos enfrentam problemas de grande monta no dia-a-dia: a maior inflação do mundo, falta de produtos básicos, desde a farinha até às baterias de carros, e a diminuição dos salários em termos reais.

Nos tempos que correm, jogar ajuda as pessoas a comprarem comida, garante Mahi Nieves, que criou uma agência de lotaria clandestina em casa. “[O jogo de azar] gera muito dinheiro, tendo em conta a situação do país. Muita gente joga e a lotaria de animais é um fenómeno. Isso ajuda-nos a comprar comida, resolver problemas que não conseguimos com o nosso salário normal”, explicou à Reuters.

Mas, também há quem alerte para os riscos associados ao jogo. Para o sociólogo Ramon Pinando, jogar pode ser inútil porque os ganhos na lotaria também estão a ser desvalorizados.

“Em tempos de inflação muito alta, quando os economistas começam a dizer que estamos perto da hiperinflação, as pessoas pensam: ‘espero ser capaz de ganhar algo, mesmo que não seja muito, mas para gastar agora, porque não posso esperar muito’. Posso ganhar na lotaria uma quantidade que só conseguiria em meses, mas mesmo assim, após cinco ou seis meses, por causa da inflação, esse dinheiro vai desvalorizar-se, porque os prémios das lotarias também serão afectados”, advertiu o especialista.

Como a última escassez na Venezuela é o dinheiro – as autoridades não conseguem produzir notas suficientes para acompanhar a inflação vertiginosa – muitos bares, lojas e salões de apostas mudaram rapidamente de caixas para transacções electrónicas para manter o fluxo monetário.

Já no hipódromo de Caracas o dinheiro ainda é rei. Milhares de pessoas concentram-se ali nos fins-de-semana, empurrando-se contra as cercas à frente da pista de areia para animar os seus cavalos de eleição, enquanto músicas de salsa tocam ao fundo.

Nas ruas, entre as múltiplas opções que vão desde corridas até salões de apostas clandestinos, os “Los Animalitos”, estilo de jogo de roleta, é actualmente de longe o jogo mais popular. Este jogo, cujos resultados são divulgados no YouTube em horários programados, envolve várias rodadas, prendendo assim o interesse das pessoas e proporcionando mais oportunidades de ganhar comparativamente às opções das apostas mais tradicionais. O bilhete mais barato custa apenas 100 bolívares, o equivalente a cerca de 80 patacas ao câmbio actual.

Apesar de não existirem dados concretos sobre os montantes das apostas, incluindo as reguladas pelo Governo, responsáveis das empresas ligadas ao sector e autoridades regionais locais, garantem que o negócio está a crescer, com filas mais longas do que nunca.

 

JTM com agências internacionais