A imigração e o comércio dominaram o encontro entre o Presidente dos EUA e o Primeiro-Ministro do Canadá, que evitaram críticas directas mas não esconderam divergências sobre políticas migratórias. Trudeau assegurou que não pretende dar “lições” a Trump, mas reiterou que o Canadá manterá um espírito de “abertura para os refugiados”

 

O Presidente dos EUA e o Primeiro-Ministro do Canadá voltaram a divergir publicamente sobre políticas migratórias, mas procuraram baixar o tom da discórdia, evitando fazer críticas directas. Todavia, Justin Trudeau deixou claro que não concorda com os esforços de Donald Trump em barrar refugiados e cidadãos de países de maioria muçulmana.

Classificando o seu controverso decreto sobre a imigração como “senso comum”, Trump contornou a questão quando foi questionado sobre se as políticas de portas abertas do Canadá representam uma ameaça para os EUA. “Nunca podemos estar totalmente confiantes”, disse, após um encontro na Casa Branca.

Na semana passada, a agência migratória americana (ICE) deteve pelo menos 680 imigrantes em situação irregular em operações realizadas em várias cidades, segundo informou o Secretário da Segurança Interna. “Do total de detidos, cerca de 75% são criminosos estrangeiros” condenados por delitos como homicídio, abuso sexual, tráfico de drogas, desordem, dirigir embriagado e posse ilegal de armas, afirmou John Kelly em comunicado.

“Estamos a apanhar criminosos – alguns crimes bem graves nalguns casos, com um grande histórico de abusos e outros problemas – e colocando-os fora” dos EUA, resumiu Trump. Porém, defensores dos direitos civis asseguram que imigrantes sem antecedentes criminais também estão a ser presos.

“O Canadá sempre entendeu que manter os canadianos seguros é uma das responsabilidades fundamentais de qualquer governo. Ao mesmo tempo, continuamos as nossas políticas de abertura sem comprometer a segurança”, contrapôs Trudeau. O Primeiro-Ministro rejeitou “dar lições” ao Presidente dos EUA sobre segurança, mas vincou que o Canadá manterá o espírito de “abertura para os refugiados”.

De facto, parece existir um abismo entre os vizinhos no que se refere a essa questão: enquanto Trump classificou refugiados sírios como terroristas Trudeau foi recebê-los ao aeroporto de Toronto.

Aliás, Trudeau, 45 anos, e Trump, 70, têm visões opostas sobre o mundo. O canadiano é um liberal (no sentido norte-americano da palavra) que defende o livre comércio, recebeu 40 mil refugiados sírios e nomeou mulheres para metade do seu governo. Já o líder norte-americano quase não deu espaço para o sexo feminino nos principais cargos da Administração, segue uma postura proteccionista na economia e tem tomado medidas duras contra imigrantes e refugiados.

 

“Pontes” para o comércio

Embora a margem de negociação sobre questões migratórias seja estreita, os dois governantes parecem mais próximos em matéria de comércio. Trump, que prometeu colocar os EUA “em primeiro lugar” e rever o Acordo de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta), assinado com o Canadá e o México, moderou o timbre do seu discurso após o encontro com Trudeau, defendendo que o comércio bilateral precisa de ser “recíproco”.

“Os EUA são muito sortudos por terem um vizinho como o Canadá”, disse, destacando a oportunidade de “construir ainda mais pontes” comerciais. “Achamos que os nossos países são mais fortes quando juntamos forças em matéria de comércio internacional”, acrescentou.

Os laços económicos entre a América e o vizinho do Norte – que partilham a fronteira comum mais longa do mundo – são fortes: três quartos das exportações do Canadá vão para os EUA e o Canadá é o principal destino das vendas de muitos estados norte-americanos.

Já Trudeau, fervoroso defensor do livre comércio, enfatizou a importância do Nafta e deixou uma subtil advertência sobre os riscos do proteccionismo para os EUA. “Canadá e EUA continuarão sempre a ser os principais parceiros um do outro”, afirmou, recordando ainda que “milhões de produtos, empregos da classe média nos dois lados da fronteira dependem dessa parceria fundamental”.

 

JTM com agências internacionais